quinta-feira, 26 de julho de 2018

OS CIGANOS

Podia ter dado mau resultado… ai podia, podia! Mas como é que nem tinha pensado nisso na altura? Como é que tinha sido tão parvanito ao ponto de nem se aperceber que estavam a fazer asneira e da grossa? E como é que no outro dia de manhã, logo àquela hora, o pai e a mãe já sabiam? Que ninguém os tinha visto, ou pelo menos conhecido, podia afiançar. Quanto muito podiam desconfiar; mas afirmar que tinham sido eles… …não podia ser!
Pouco passava da hora de almoço, e parecia-lhe que o dia já começara havia séculos. Sentia um nó na garganta, um peso no peito e uma inquietude que não sabia explicar. O tormento tinha começado logo de manhanita, quando estava já sentado à mesa a beber o café com as migas, antes de abalar com o pai para a lavoura, para uma folha de alqueve que estavam a fazer no Barranco da Nora. 
Já havia estranhado a atitude do pai e da mãe, ambos muito sérios, sem dizerem nem de lhe dirigirem uma única palavra, desde que a mãe o acordara de manhã com um ríspido “levanta-te que são horas!” O coração deu-lhe um pulo quando a mãe lhe perguntou de repente:
 - Onde é que foste ontem à noite?
– Quem… eu? – Perguntou de uma forma que a ele próprio lhe soou demasiado comprometida e atabalhoada.
 – Sim, tu…onde é que estives-te ontem à noite?
 – Estive com os moços… e ao pé do fogo à da ti Balbina.
 – Sim. E antes de ires para casa da ti Balbina, o que é que estives-te fazendo?
– Nada…
- Nada? Onde é que foste com o Manel?...E que mal é que as pessoas vos estavam fazendo, para se irem meter com elas?
Porra… estava lixado! - Engoliu em seco e não respondeu, dando com o silêncio a verdadeira confirmação ás suspeitas da mãe, se esta alguma dúvida ainda tivesse. Mas como é que àquela hora já sabiam o que se tinha passado? E, pior ainda, que ele tinha estado metido nisso? Mas a mãe continuou, implacável:
 - Não tens vergonha? E se vocês abrem a cabeça a uma criatura com uma pedra? - O pai, por seu lado, fixava-o com um olhar duro e reprovador enquanto murmurava:
- Moços dum cabrão, que só fazem tarravasias… não têm mais nada que fazer? Não sabem bater com a cabeça numa parede?
 - Não lhe bateram. O pai ainda disse:
- Devia-te pregar um valente par de orelhadas, que era para aprenderes! - Ao que a mãe reforçou de imediato:
- Com a mão não!... Devia era levar com uma vara de loendro verde nas nalgas, até que ela tivesse um pedacinho!
- Bom… a tempestade ia acalmando. Ainda pensou que levava uma untura, mas estava safo! Não que lhe cascassem com muita frequência, aliás, era mesmo muito raro isso acontecer, se calhar porque já ia sendo um homenzinho - tinha quase treze anos – mas desta vez tinha visto a barra áspera!
Tinha pressa em pôr um ponto final à situação. Contrariamente ao que por norma acontecia foi o primeiro a terminar o pequeno almoço e a levantar-se da mesa, com a desculpa de ir dar água ás bestas, que o pai já tinha albardado, para se irem embora para a lavoura. Mas ainda havia outra etapa a ultrapassar, que agora o estava também a preocupar: é que no caminho que levavam para ir para a lavoura passavam à raciada do ti Romão, a menos de dez metros da alfarrobeira onde os ciganos estavam acampados! E se eles também já sabiam quem tinha sido? E se o chamassem a contas quando ia a passar? Bom… pôr-lhe as unhas em cima é que não punham. Nem que tivesse que dar corda ás botas!
Apressou-se a desamarrar as bestas, carregou o alforge com a talega do almoço e as cevadeiras de ração  que o pai já tinha aviado, fez uma azelha na arreata do macho, prendeu-a na arrabicha da albarda do burro e dirigiu-se para o poço público, situado a pouco mais de cem metros da povoação. Todos os dia de manhã, antes de abalarem para a lavoura, era sua função pôr os animais a beber na pia junto ao poço, na qual ia despejando a água tirada  a braço com a corda e o caldeirão. Á volta empontou o burro á frente e regressou já montado no macho, não fosse caso de o pai o escolher para se montar e deixasse o burro para ele, como ás vezes sucedia. Se isso acontecesse e tivesse que cavar por causa dos ciganos, estava lixado porque o burro não fugia nada! Pelo contrário o Maroto era o macho mais famoso das redondezas e se tivesse que fugir, por muito que os ciganos corressem, jamais chegariam sequer perto do Maroto.
O local do acampamento, a cerca de quatrocentos metros, era perfeitamente visível do sitio onde estava, quando se meteram ao caminho. O pai à frente acavalo no burro e ele atrás montado no macho. Se fosse preciso dar à sola, rapidamente faria o Maroto dar meia volta e disparar a caminho de casa. Olhou na direção do acampamento e estranhou ver um certo movimento em redor do mesmo.
 - Mau, mau!… seria que o tinham visto abalar e já estavam à espera dele?
 - À medida que se iam aproximando, o coração acelerava. Ao desfazer a curva da ponte, o local do acampamento que até aí tinha estado encoberto pela enorme alfarrobeira, ficou de repente a descoberto. O Zé esperava tudo menos aquilo! O acampamento tinha sido desmontado. Burros e muares estavam carregados com as mais variadas trouxas e os ciganos preparavam-se para se irem embora. Deviam ser umas vinte e tal pessoas, possivelmente todos da mesma família. Em cima das trouxas estavam algumas crianças, mais pequenas do que ele. Dois moços, mais ou menos da sua idade, estavam escarrapachados em osso em dois burros magros como dois cães galgos. Sempre lhe fizera espécie, como é que eles conseguiam andar acavalo naquelas serrilhas. Também andava por vezes acavalo sem albarda, mas no Maroto era diferente. Estava gordo como um texugo e era cómodo mesmo sem a albarda. Os dos ciganos, pelo contrário, faziam jus à expressão de “andar acavalo em osso”.
Um pouco mais adiante estavam duas carroças já atreladas ás bestas e prontas para iniciar a marcha. Em cima das carroças estavam duas mulheres com as crianças mais pequenas, duas delas de colo. À frente de uma das carroças, segurando as arreatas da mula que a ela estava atrelada, estava uma miúda com uns sete ou oito anos, que o Zé de imediato reconheceu como sendo a Carmencita, uma das crianças filhas da cigana Marília.               - Caraças… era a família da Carmencita!
 - A ciganita fixou-o com os seus olhos acinzentados que pareciam ainda mais tristes do que era costume, como se ela soubesse que era por sua causa que estava a partir de novo, poucas horas depois de ter chegado.
***
A família da Marília era um dos muitos grupos de ciganos que regularmente por ali passavam, acampando invariavelmente naquele local. Estava habituado a ver por ali a Marília com os filhos. Era uma cigana bastante nova, que deveria ter pouco mais de vinte anos, mas que já tinha três filhos: a Carmencita, um irmão com cerca de cinco anos e uma irmã mais pequenita. A Marília era muito bonita. Usava roupas garridas ao contrário da maioria das ciganas, mesmo as relativamente jovens, que usavam sempre roupa preta. A saia comprida, a arrastar pelo chão, não deixava ver um centímetro acima dos artelhos, mas sugeria uma continuidade de formas perfeitas, que se iniciavam num rosto angelical, encimando um busto de cortar a respiração.
Quando via a Marília, o Zé lembrava-se sempre das velhacarias do ti Jacinto, quando um dia estavam à folga nas ferrovêras. Este local, cujo nome lhe era dado por um maciço de três enormes alfarrobeiras que cruzavam os ramos entre si e ofereciam uma sombra fresca e frondosa nos dias quentes de verão, era um território exclusivamente masculino. Era o local onde a maioria dos homens do monte, incluindo os moços novos e muitos gaiatos, se juntavam depois de almoço para a folga, durante as horas de calor mais intenso, até poderem ir continuar com as lides do campo, lá para o fim da tarde, quando o calor avagasse.
Durante as três ou quatro horas que por lá permaneciam, muitos aproveitavam para fazer determinados trabalhos, fosse por necessidade ou simples entretenga. O ti Costa, que morava a três passos dali, tinha mesmo a bancada de carpinteiro e abegão montada permanentemente debaixo das alfarrobeiras e aproveitava o local e a hora da folga, para fazer ou dar um adianto a muitas das encomendas de instrumentos agrícolas que tinha. Quando se tratasse de trabalhar a madeira, quer fossem instrumentos simples como as boleias e cangalhos para lavrar de carramato, as grades, puxos e paviolas, etc., as peças um pouco mais elaboradas como as cangalhas, arados e cangas, ou até de quando em quando uma queijeira, como a que recentemente fizera com um enorme cepo de azinho, tudo o ti Costa executava como ninguém nas redondezas.  
O ti Donizo, um dos maiores especialistas do Monte na arte de trabalhar com abelhas, aproveitava por vezes para fazer mais uns cortiços (ou corchos, como também lhe chamava), pôr algumas travessas ou tampos novos nalguns que estivessem mais ruins, ou simplesmente fazer os viros com pernadas de esteva, para posteriormente pregar os tampos dos cortiços.
Uma grande parte dos homens e dos moços novos, dedicavam-se à cestaria naquele local durante o período da folga e ás vezes durante mais tempo. Havia especialistas como o ti Madeira, que executava qualquer peça com perfeição, e outros mais arramendões, como era o caso do ti Joquim que por vezes começava com ideia de fazer uma peça e saia-lhe outra. A malta, para o picar, perguntavam-lhe quando começava uma peça: - o que é que vai sair daí hoje, ti Joquim? Ao que ele respondia sempre: “ou um cesto, ou uma canestra!”
Dali saiam todas as peças de cariz utilitário possíveis de imaginar na arte de trabalhar a cana, de acordo com o interesse, habilidade e principalmente das necessidades de cada um:  cestos e canastras dos mais variados tamanhos, de acordo com a função que lhes ia ser dada, na recolha, transporte ou armazenamento de produtos agrícolas e outros;  costuras para as mulheres guardarem todos os utensílios relacionados com a atividade do mesmo nome; condensas para guardar os pães da amassadura semanal; côvados para pescar na ribeira ou nos barrancos, quando as bogas e as pardelhas subiam, no tempo da desova; caniços para secar os queijos; esteiras de enrolar para secar os figos (quando não se conseguiam arranjar os juncos pretos de que eram preferencialmente feitas); canestros de proteção para as árvores pequenas para não serem comidas pelos  animais, etc. Havia até quem se entretece a encanestrar garrafões (quando as respetivas proteções originais em verga se tinham estragado), garrafas de vidro por pura entretenga e até enfusas de barro.
De quando em quando, havia quem fizesse um tipo de canastra especial para fazer as dornas para armazenamento de água. Neste tipo de canastras não eram tirados os nós das canas, cuja posição nas paredes das canastras iam sendo alternada, uma para dentro uma para fora, de forma a facilitar a adesão da cal ou do cimento com que iam ser posteriormente cobertas. No que se refere ás dornas, havia até quem fizesse experiências de sucesso como aquela feita pelo ti Liquineto, que depois de fazer a canastra da dorna a forrou em barro. Para cozê-la, cobriu-a com terra e fez-lhe um forno de carvão à volta. Quando o desenfornou, depois de ardido, além do carvão retirou de dentro do forno a dorna com o barro tão bem cozido como os alguidares das olarias de Martim Longo, que se compravam na Feira de S. Marcos e outras dos arredores.
Por sua vez a moçanhada tinha por lá bastante em que se entreter. Uma das principais entretengas era mesmo a aprendizagem da arte da cestaria e de trabalhar as canas de uma forma geral. Uns pelavam canas para os homens trabalharem, outros treinavam-se a rachá-las, outros nas primeiras tentativas para fazer um cesto ou outra peça qualquer, no que iam sendo orientados pelos homens. Quando conseguiam terminar, as primeiras eram  normalmente bastante toscas, mas representavam uma vitória porque, a partir daí, iriam melhorando gradualmente. Alguns faziam gaiolas de canas que iriam servir de cativeiro para um casalinho de rolos, retirados do ninho quando ainda tinham penugem e que seriam alimentados com bagos de trigo, que  lhes metiam um a um no bico e lhos empurravam ás goelas abaixo, até aprenderem a comer sozinhos.
Muitos outros faziam brinquedos ou observavam atentamente como eram feitos antes de ensaiarem as primeiras tentativas para fazer os mais variados tipos de apitos, flautas, realejos, espingardas, arados, carros com roda de cortiça, canudos para proteção dos dedos na ceifa... e por aí fora. Alguns homens faziam esparrelas de perdiz, sempre que conseguiam arranjar um chapéu de sol velho que já não tivesse conserto e do qual aproveitavam as varetas para fazerem as molas das esparrelas, que era sempre o a componente mais difícil de conseguir. Ao mesmo tempo muitos moços dedicavam-se a fazer esparrelas para a passarada. Por fim, muitos outros frequentavam o lugar por puro lazer. Estendiam-se a dormir a folga, ou ficavam apenas na conversa sobre os mais diversos assuntos: contavam ou ouviam as mais variadas histórias e /ou experiências diversas, falando da vida e das atividades do campo, contando passajolas e por vezes ajudiando com os gaiatos. Tudo contribuía para que a hora da folga nas ferrovêras fosse, por excelência, um momento de socialização local extremamente importante.
Nesse dia a Marília tinha passado pelo caminho junto das ferrovêras, numa das suas voltas pelo Monte. Deu educadamente as boas tardes e toda a gente retribuiu no mesmo tom mas, quando a Marília ia extrepondo e já não o podia ouvir, o ti Jacinto disse para o Lourenço, um moço que ia já nesse ano tirar sorte e que  tinha seguido com olhos gulosos a marcha da Marília:
 - Ó Lourenço…tu não tens ouvido dizer que quem xaringa uma cigana morre de pau feito?
- Perante o coro de gargalhadas que foram emitidas por todos os presentes, o Lourenço, na sua atrapalhação por ter sido apanhado em falso, desculpava-se dizendo que não estava a olhar para a cigana com as ideias que o ti Jacinto insinuava. Este, para satisfação geral dos presentes, continuou ainda atazanando a cabeça ao Lourenço por um bom pouco:
- Queres-me dizer a mim que nã tavas galando a cigana?
– Não estava não senhor…
- Ah pois não!… eu não vi que tavas luzindo o olho quando ela passou!
- Quando o grupo da Marília estava no Monte era costume ela ir pedir, acompanhada pelos filhos e todas as mulheres lhe davam qualquer coisa, por muito pouco que tivessem também. Muitas delas pouco mais tinham do que a cigana, mas arranjavam sempre alguma coisinha para lhe dar: um cascote de pão, umas azeitonas, um bocado de toucinho, dois ou três ovos, um pedaço de queijo, alguma hortaliça ou fruta… havia sempre qualquer coisa. O Zé lembrava-se de um dia em  sua casa, em que depois de terem almoçado sobrara apenas metade de um pão. A mãe, que só no dia seguinte iria cozer a amassadura semanal, tinha dito:
- Condutem com o pão, que tem que dar para hoje e para o café de amanhã de manhã. - Pouco depois aparecera a Marília a pedir, e o Zé ficou de boca aberta ao ver mãe pegar numa faca, partir o resto do pão ao meio e entregar uma das partes à Marília. Assim que esta se foi embora, o Zé questionou de imediato a mãe:
 - Se só tínhamos aquele bocado de pão até amanhã, porque é que deu tanto à cigana?
– Porque a gente ainda tinha metade de um pão e ela não tinha nenhum!
 – Pois… e agora como é que este cascote dá para a merendinha, para a ceia e para o café de amanhã?
– Não se come merendinha e faz-se a ceia mais cedo – voltara a responder a mãe, com toda a naturalidade do mundo.
– Mas mesmo assim… como é que o pão dá para a gente os cinco?
– Guarda-se para o café de amanhã, que eu à tarde faço umas papas de milho para a ceia, e já não é preciso pão.
- Bom…não valia a pena mais conversa; o que não tem remédio remediado está. E pensando bem, não era assim tão mau como isso. Bem pior deviam estar os ciganos. Se a Marília não arranjasse mais pão e tivesse que dividir aquele cascote por eles todos, não dava a migalha cada um. Ele ainda tinha as papas para substituir o pão… muitos daqueles ciganos, se calhar ainda nunca tinham comido umas papas de milho!
 - O Zé dirigiu-se para a rua à procura de camaradas para a brincadeira e sentiu-se de repente estranhamente satisfeito por a mãe ter dado metade do pão que tinham à cigana.
Muitas vezes a Marília nem precisava de dar a volta completa ao Monte para arranjar alimento para toda a família. Havia um carinho muito especial por aquela cigana. As mulheres  comentavam: - Coitada…tão nova e já com três filhos!
 - A Carmencita também era muito bonita. Tinha uns olhos cinzentos e grandes, que acentuavam ainda mais a melancolia do seu rosto. Fora do seu círculo familiar era uma criança extremamente reservada, sendo raras as vezes que o Zé lhe tinha ouvido a voz, contrastando nesse aspeto com a mãe, que parecia uma gralha, sempre a falar, irradiando alegria e boa disposição.
Lembrava-se de uma única exceção com a Carmencita; nessa vez tinha-a visto rir e falar p’los cotovelos.  Tinha sido alguns meses atrás, numa tarde de início de verão. Estava brincando na rua com o António, o Luís, a Rita e a Filomena, quando a Marília apareceu com os filhos. Ficou na cavaqueira com algumas mulheres que estavam junto ao forno público tendendo mais uma amassadura de pão para cozer, depois de já terem retirado uma fornada. Por uma questão de economia de lenha e também de entreajuda entre si, as mulheres do Monte costumavam combinar-se, em grupos de três ou quatro, para cozerem o pão no mesmo dia. Desta forma, depois de cozer uma fornada de pão, seria necessário meter uma quantidade mínima de lenha no forno, até o mesmo atingir novamente a temperatura ideal para nova fornada.
 Nesse dia estavam a jogar à pata choca, com uns ovos de pardal que ele e o Luís tinham arranjado no telhado da escola. Durante toda primavera e até mesmo verão adentro, o telhado da escola era uma fonte inesgotável de ovos de pardal. Por muitos que lhes roubassem, os cabrões dos pardais voltavam a fazer novos ninhos e a pôr mais ovos. O Zé achava aquilo estranho; ou os bichos eram muito tortos ou eram muito parvos. Mas porque raio é que só faziam os ninhos no telhado da escola, se ele era exatamente igual a todos os outros telhados do Monte, onde os bichos não faziam um único ninho?  Era infalível! Bem no início da primavera era vê-los a acartar pastos secos, penas de galinha, bocadinhos de tecido e outros desperdícios que arrebanhavam nas estrumeiras e enfiarem-se com eles debaixo das telhas, onde faziam os ninhos. Haviam canais que estavam cheios de baixo a cima, e de vez em quando a malta fazia por lá uma razia.
Descalçavam os sapatos, se os tinham, para não partir as telhas; subiam ao telhado, iam levantando telhas e recolhendo os ninhos que iam sendo passados de mão em mão, para o camarada que tinha ficado no chão. Ao contrário da maioria dos pássaros, que faziam os ninhos abertos como se fosse uma bola cortada ao meio, os pardais faziam-nos fechados. Era a bem dizer um ramulhão de pastos secos, como se fossem toscos globos, com uma pequena abertura por onde entravam. Terminada a recolha, toda a malta se juntava para retirar os ovos dos ninhos e selecioná-los de acordo com o destino a dar-lhe. Se ao abrir os ninhos, os mesmos estivessem já empenados, ou seja, forrados por dentro com uma grande quantidade de penas, era sinal de que o choco estava numa fase final e os ovos prestes a tirar plôtos. Neste caso eram deitados fora com o respetivo ninho, porque não era nada agradável usá-los para o jogo. Os restantes eram selecionados num caldeirão ou lata de zinco cheia de água. Os ovos que ao colocarem-se na água fossem ao fundo, ainda não estavam chocos. O seu destino era um furinho em cada uma das duas extremidades, feito com a ponta de uma faca ou com um pauzinho afiado, uma chupadela por um dos furos, e adeus ó ovo! Finalmente os que boiassem estavam chocos e o seu destino era o jogo da pata choca.
O Zé ficava sempre lixado quando ocasionalmente surgiam ninhos já com pardais pequenos. Uma coisa era tirar os ovos e deitá-los fora, ou apanhar pássaros adultos para serem comidos; outra bem diferente era matar os passarinhos pequenos que além de estarem indefesos, ainda por cima não tinham qualquer aproveitamento. Por outro lado os pardais até não eram os únicos a escangalhar o telhado, porque os gatos que constantemente por lá andavam, desviando as telhas para tentar caçá-los, tinham também a sua quota de culpas no cartório. O certo é  que, à conta disso, todos os anos no verão o telhado da escola tinha que ser arranjado, para que no começo das aulas, que se iniciavam no dia sete de outubro, estivesse em perfeitas condições. Os homens do Monte juntavam-se quase todos e iam dar volta ao telhado. Destelhavam tudo, retiravam os ninhos de pardal que tivessem sobrevivido ás constantes razias dos gaiatos  e voltavam a colocar as telhas no lugar. Nessa altura os pardais novos que ainda não tivessem deitado à monte, estavam lixados porque era uma razia total. Mas tinha quer ser.
O Zé lembrava-se do ano em que entrou para a escola e que os homens não arranjaram o telhado  no fim do verão... e tinha sido uma desgraça. Por azar começou a chover ainda antes da feira da praia; o outono apresentou-se bastante chuvoso e dentro da escola choviam goteiras por todo o lado.  Era começar a chover e ver o pessoal arrastar as carteiras de um lado para o outro, para se furtarem ás goteiras. Isto para não falar do vento que assobiava por baixo das telhas, nem na merda de pássaro e pastos secos que caíam um pouco por todo o lado. A menina Clarinha, uma quarentona que ali fora colocada nesse ano como professora regente, estava fula. Cada vez que chovia ameaçava fazer um ultimato aos pais dos alunos: ou o telhado da escola estava arranjado quando ela regressasse das férias do Natal, ou a escola não começava até que fosse arranjado.
Mas não foi. Os homens argumentaram que com as telhas brandas como estavam com a chuva, iriam partir-se muitas se fossem arranjar o telhado com elas naquele estado. Nesse ano, na cabana do Menino Jesus que estava no presépio num dos cantos da sala, deve ter chovido mais do que na cabana original, quando o dito nasceu em Belém.
A partir daí e á conta dos pardais, o telhado era arranjado todos os anos antes de começar a escola. Ás vezes nem levava um dia. De manhã bem cedinho, depois de ter sido previamente anunciada a data, a maioria dos homens do Monte, muitas mulheres e algumas crianças, juntavam-se ao pé da escola para dar uma ajuda no arranjo do telhado. Havia trabalho parta todos. Antes de os homens começarem a destelhar, as mulheres entravam na escola e com alguns lençóis e mantas velhas  tapavam os objetos mais importantes da sala: o crucifixo do Nosso Senhor, os retratos do Salazar e do Américo Tomás, a secretária da menina Clarinha e o mapa de Portugal, para não apanharem com terra e porcaria que sempre caía do telhado. Com as carteiras de madeira não havia problema.
Os homens começavam depois a retirar as telhas e a passá-las de mão em mão até ao chão para serem limpas, tarefa que estava a cargo das mulheres e das crianças. Enquanto umas iam raspando com uma pedra ou um pedaço de um pau, outras iam varrendo as que já estavam raspadas, com velhas vassouras de palma. Depois de todas limpas, as telhas eram novamente passadas para cima do telhado para os homens as  colocarem no sítio. No ano anterior, fruto de uma inovação, o telhado tinha ficado mesmo bom. Nesse inverno quase não choveram goteiras e não tinha caído nem uma pisca de terra, mesmo nos dias de maior vendaval. É que o telhado tinha sido pela primeira vez estucado, com um grande maço de jornais, que o pai da Paulinha e do João que moravam em Lisboa tinha trazido, quando vieram passar as férias ao Monte. Caraças, que grande maço de jornais… deviam de ser mais de duzentos! Deram para forrar o telhado da escola e ainda sobrou um moitão deles que as mulheres dividiram entre si e levaram para casa. Os jornais eram bons para fazer bolsos para embolsar as uvas, para forrar as pilheiras e frisos, depois de se lhe fazer uns recortes para enfeite; para pôr debaixo do tacho das papas, ou mesmo para ajudar a acender o fogo quando a lenha estava branda.
Nesse ano o pessoal tinha-se esmerado no arranjo do telhado. Não tinha sido só a tradicional volta, mas tinha levado também um caniço novo. Tinham ido colher canas à Ribeira da Foupana, à parte de cima do pego do Lindague, no canavial do Samarrinha. O Zé e o Chico tinham ido também com os homens e à medida que estes iam colhendo as canas, ajudavam a trazê-las para fora do canavial, a tirar-lhe os carriços e a coloca-las num moitão. Outros iam logo pelando nelas, usando para o efeito alguns foiços, que tinham sido feitos de foices velhas, cujas lâminas tinham sido partidas sensivelmente a meio, tornando muito mais fácil o seu manejo para a tarefa da pela das canas. Quando se estimou que havia uma quantidade suficiente, foram agrupadas em molhos de vinte e cinco, atadas  com varas de loendro verdes e carregadas nas bestas para serem  levadas para o Monte. Pararam ainda no barranco dos Soalheirões, para o pai do Chico colher com um podão, um molho de varas de loendro grossas, que posteriormente seriam rachadas ao meio para ajudarem a fixar com pregos, as canas do caniço aos paus do telhado. Depois de dois dias de trabalho que envolveu uma grande parte das pessoas do Monte, o telhado da escola ficou pronto. Nesse ano, quando começou a época das chuvas e do frio, não foi preciso fazer fintas ás goteiras e a menina Clarinha esfregava as mãos de contente não se cansando de repetir o quanto acolhedora estava agora a escola.
***
A Carmencita ofereceu inicialmente alguma resistência quando a chamaram para brincar com eles. A Filomena e a Rita acabaram por convencê-la, quando foram ter com ela e se ofereceram as duas para lhe emprestarem as suas bonecas. A Carmencita, que estava com a irmanzita pequena atraçalhada ao colo, acabou por pô-la no chão e ainda que um pouco de pé atrás, seguiu a Filomena e a Rita. Brincaram com as bonecas durante um bom pouco e a Filomena ficou durante breves instantes de monco caído, por a Carmencita preferir brincar com a boneca da Rita. A boneca da Rita tinha-lhe sido oferecida por uma tia, que a comprara numa loja em Lisboa, onde morava. Pelo contrário a da Filomena era uma boneca de trapos que a avó lhe  tinha feito. Tinha por base a forca de uma vara de loendro, como as que o Zé usava para fazer uma fisga, que depois tinha sido engenhosamente envolta em trapos para lhe dar volume e finalmente com acabamentos muito perfeitos. Duas marcas de punho de camisa, azulinhas, a fazer de olhos, a boca bordada com linhas cor de rosa, os cabelos, feitos com um bocado de linho, atados em rabo de cavalo, uns pés e umas mãos também muito bem feitos, ainda que em tamanho um pouco desproporcional em relação ao corpo.
Um pouco mais afastados, o Zé, o Luís e o António, continuavam a jogar à pata choca e finalmente conseguiram que a Rita e a Filomena trouxessem também a Carmencita para o jogo. Tratava-se de um jogo simples, mas ao qual achavam piada pelo facto de ser preciso muita concentração e golpe de vista, para ter êxito no mesmo. No jogo da pata choca, começava por colocar-se o pequeno ovo no chão de terra, a cerca de três metros de uma linha marcada no chão, atrás da qual todos  se posicionaram para iniciar o jogo.  A Carmencita foi a última a jogar, para que pudesse observar como é que se fazia. Cada vez jogava um. Junto da linha, observavam e memorizavam bem o local onde estava o ovo, antes de lhes serem vendados os olhos com um lenço preto que a Filomena tinha ido pedir à avó. Seguidamente pegavam na vara com cerca de um metro de comprimento e avançavam alguns passos, de olhos vendados, procurando depois atingir o ovo com uma única varada.
O Zé e a Filomena eram os campeões deste jogo, já que conseguiam acertar e partir mais ovos do que qualquer outro dos camaradas de brincadeira. Mas rapidamente a Carmencita lhe apanhou o jeito. Ás duas primeiras tentativas, a vara bateu perigosamente perto do ovo, deixando adivinhar que era uma adversária a ter em conta. Nos primeiros ovos que partiu, o Luís ainda argumentou que era sorte de principiante mas, quando as varadas certeiras se iam repetindo, acabou por concordar que já era sorte a mais. O António, por sua vez, exclamava com admiração:
- Porra… que a gaja tem cá um tino do caraças! - Nesse dia, quando a Marília regressou com os filhos mais novos ao acampamento, a Carmencita ficou ainda por muito tempo na brincadeira com o grupo do Zé.
***
Os ciganos continuavam numa azáfama dando os últimos retoques na trogia que tinham carregado nas bestas e nas carroças, sob as indicações de um cigano já com alguma idade, de chapéu preto, longas barbas e cabelo picarço. O pai do Zé deu os bons dias e, como quem não quer a coisa, disse para o cigano do cabelo picarço:
- Então ainda ontem à tarde chegaram, já se vão embora?
O cigano, de cara muito séria e voz arrastada, respondeu:
- Vamos embora porque não nos querem cá! - O pai do Zé, fazendo-se desentendido, voltou a perguntar:
- Mas quem é que não os quer cá?
 - Quem é não sei, mas alguém não nos quer cá, porque ontem à noite entraram com a gente à pedrada.
– Ó homem… ninguém com juízo aqui no Monte se ia meter com vocês! Têm estado cá tanta vez, já alguém vos fez mal?
– Não. Nunca. A Palmeira é um dos Montes  onde temos sido melhor tratados até agora. Mas ontem à noite correram-nos à pedra!  - O pai do Zé continuou argumentando:
 - Isso quem se meteu com vocês foram dois ou três gaiatos sem trembelho. Deixem-se estar aqui que ninguém vos faz mal.
– Não vizinho…não foram gaiatos não senhor. Não há gaiato nenhum que seja capaz de jogar pedras daquela maneira! Quem jogou as pedras tinha muita força, porque as jogou de bem longe. A gente corremos tudo à procura e não encontrámos, nem vimos ninguém por perto.
- O coração do Zé galopava cada vez mais, pelo rumo que a conversa tinha tomado. Seria que o pai ia dizer ao cigano que tinha sido ele? Viu-o a olhar na sua direção e percebeu que  estava a equacionar essa hipótese. Acabou por não o fazer. Não o fez, provavelmente por se ter apercebido de que não valia a pena, porque nada iria demover os ciganos da decisão que já tinham tomado e que nunca acreditariam que tinha sido obra de gaiatos. Para alívio do Zé, o pai voltou a iniciar a marcha e deixaram para trás os ciganos que continuaram a ultimar os preparativos para a partida. Mas o alívio foi sol de pouca dura. Uma culpa e uma angústia imensa iam-se apoderando dele. A voz do pai, que tinha começado com um “tás a ver a merda que fizeram?” e continuado com a aplicação de uma das maiores lições de moral de que se lembrava, soava-lhe estranhamente longínqua.
As ameaças do pai  dizendo - “se voltas a fazer outra pirraça destas… levas tamanha a b’fatada, que andas de raboleta na minha frente”, - nem de perto feriam tanto como os seus comentários e perguntas: - Se a gente tivesse na pele deles, gostavas que nos fizessem o mesmo? Já viste que esta desgraçada desta gente teve que se ir embora por causa vossa?
- Sim. Era verdade! Iam-se embora por causa deles. Agora tinha consciência da belhoreta que tinham feito. A cigana Marília já não iria pedir à volta do Monte. Se calhar no outro Monte para onde iam, não lhe davam tanta coisa para comer, e nesse caso a Carmencita  e os irmãos até podiam passar fome. A Carmencita já não ia brincar com ele e os outros moços, como tinham feito naquela tarde em que jogaram à pata choca. É certo que agora não poderiam jogar aquele jogo, porque não havia ovos de pardais, mas havia sempre outros jogos que poderiam jogar: ao apanha, ao arrabenta, ao palito, à pedra, ao zangro, à cabra cega, à calha, e por aí fora.
Mas o que mais o arrepiava era pensar nas consequências que podia ter havido, se a coisa corre para o torto. Se uma daquelas pedras pesca um pela cabeça, o mais certo era limpar-lhe o sarampo! - Está bem que os ciganos não estavam diretamente expostos às pedras, porque não estavam em campo aberto. A enorme alfarrobeira e as oliveiras em redor ofereciam uma proteção razoável, e as pedras tinham sido todas paradas por elas.  Mas à má hora não ladra cão; uma daquelas pedras podia ter passado pelo meio das árvores, atiçar uma boguêchada numa criatura e abrir-lhe a cabeça, como a mãe tinha dito. Olha se fosse aquela última que jogaram antes de fugir, que apanhou o tronco duma árvore e lhe deu um estacaço que entoou por aquele barranco todo…
O pai tinha razão e sabia do que falava quando disse ao cigano que aquilo tinha sido obra de gaiatos; mas do que se tinha passado, o pai nem sabia da missa metade. E ainda bem que não sabia porque, se soubesse, a coisa tinha piado mais fino e não se tinha livrado duma carga de estoiros, nem que o Deus do céu viesse à terra! Mas também era natural que o cigano da barba e do cabelo picarço, não acreditasse que tivesse sido obra de gaiatos. Um gaiato nunca poderia jogar pedras com tanta força e de uma distância tão grande, a que seguramente estavam, para ele e dois ou três camaradas não os terem encontrado, nem sequer posto a vista em cima, quando foram à procura deles, como o próprio cigano dissera. Além do mais estava uma lua que nem um sol, fazendo justiça ao ditado que diz que “luar de janeiro não tem parceiro”.
 Que um gaiato nunca poderia jogar pedras com tanta força, era apenas meia verdade. O que o cigano não lhe passava pela cabeça e ao pai muito menos, é que as pedras não tinham sido jogadas à mão, mas sim com uma funda! Poucos seriam os adultos, mesmo os de braço mais rijo, que conseguiam jogar á mão uma pedra que ultrapassasse á vontade a marca dos cem metros. Pois bem… aquelas tinham sido jogadas de uma distância  acima dos cento e cinquenta metros!
***
Tudo tinha começado no dia anterior, quando o Manel lhe apareceu à noitinha ao pé com uma funda novazinha que fizera nessa tarde, com um pedaço de linho que tinha ganfiado à mãe, duma das meadas que  ela já tinha passado pelo sedeiro e que estavam prontas para serem fiadas. Todo contente, o Manel confidenciara-lhe que ainda não estreara a funda; que ia fazê-lo nessa noite e que o Zé tinha que ir com ele.
– Então e porque não a experimentamos já? -  tinha perguntado ao Manel, que retorquiu de forma enigmática:
- Não… ninguém pode ver-nos jogar pedras com a funda!
- Mas porquê? - voltara a perguntar, admirado com tanto segredo. Com um sorriso de triunfo, o Manel passou a explicar: nessa tarde tinha chegado ao Monte uma mancheia de ciganos e tinham, como era hábito, montado o acampamento debaixo da ferroveira do ti Romão. Pois bem… a ideia era nessa noite, quando todos estivessem à roda do fogo, subirem os dois até ao Cerrinho da Chã e mandarem-lhe umas quantas pedradas com a funda. Sem pensar duas vezes, o Zé atirou com um - “cabrão seja quem se arrepender”!     - Não ia haver problema. Sempre queria ver se o Manel era capaz de jogar pedras tão longe como se gavava. - O Cerrinho da Chã ficava a mais de cem metros do Barranco do Monte, e o Zé previa que as pedras fossem cair na zona do barranco. A alfarrobeira, debaixo da qual estava o acampamento dos ciganos, ficava ainda do outro lado do barranco, a uns bons quarenta ou cinquenta metros. As pedras não deviam chegar lá, mas os ciganos iam ouvi-las cair no barranco. Apanhariam um bom cagaço, e ele e o Manel uma barrigada de rir.
- Tudo correu como haviam planeado. Tinham combinado encontrar-se no largo, ao pé do forno do Monte, e o Zé depois de comer a ceia encaminhou-se para lá. A noite estava limpa. No céu, sem um bico de nuvem, a lua cheia derramava uma luz tão clara que, em campo aberto, seria perfeitamente possível ver o vulto de uma pessoa em movimento a  mais de um quilometro de distância. Na rua não se via vivalma. Das chaminés subiam colunas de fumo tão direitinhas, tão direitinhas, que confirmavam a ausência de um simples bafo de vento. Por um ou outro postigo aberto, viam-se tremelicar as luzes mortiças dos candeeiros a petróleo. Na noite gelada, o silêncio era apenas quebrado pelo ladrar compassado de um ou outro cão.
Ao longe, para os lados da Corga da Burra, começaram a ouvir-se os gritos agoirentos de um mocho. Sem saber bem porquê, o Zé arrepiava-se todo quando ás vezes andava de noite sozinho na rua e ouvia um mocho a cantar. Se calhar era porque algumas pessoas velhas do Monte, diziam que os mochos cantavam quando aberruntavam gente morta. Ao pensar nisso não pôde evitar um dos tais arrepios, enquanto o mocho continuava com a sua gritaria que, no silêncio da noite, podia ouvir-se a quilómetros de distância: uíu!…uíu!… uíu!… úúúúuuuu… úúúúuuuu… uíu!…uíu!
- Pássaro dum cabrão que não se cala! - resmungou, enquanto se dirigia para  o pial do forno, com intenção de sentar-se à espera que o Manel chegasse. De repente, com um enorme salto, saiu um gato disparado de dentro do forno roçando ainda no ombro do Zé, enquanto no ar ficava pairando o poeiredo da cinza, que levantou ao saltar do forno. O Zé deu instintivamente um salto para o lado, enquanto sentia um arrepio percorre-lo dos pés à cabeça, sitio onde pareceu demorar-se mais, dando-lhe a impressão de ter ficado com os cabelos em pé.
– Gato dum cabrãofilho da puta que me fez apanhar medo! - praguejou, ainda com o coração dando pulos. Já não se sentou. Rodou à volta do monte disposto a ir à casa do Manel, mas não chegou lá porque o encontrou também já a caminho do local combinado. Saíram do Monte e afastaram-se o suficiente para não serem reconhecidos caso alguém os visse. Atravessando as raciadas, contornaram a povoação passando a cerca de cem metros das casas no limite da mesma. Desceram ao Barranco do Deserto, passaram a Cerca das Oliveiras e dirigiram-se ao Cerrinho da Chã. Pelo caminho, sentindo-se agora bastante mais foito na companhia do Manel, o Zé foi-lhe contando o cagaço que o gato lhe tinha pregado. Com uma gargalhada abafada, para não chamar a atenção de alguém que eventualmente estivesse nas proximidades, o Manel exclamou:
- Porra, porra, que é preciso ter cagufo! Estava mais que visto que saltava um gato de dentro do forno. As mulheres cozeram hoje e a cinza ainda deve estar quentinha. Está um cabrão dum frio, que até um gajo lhe apetecia meter-se dentro do forno… quanto mais um gato!
Já a meio da soalheira, enquanto subiam para o Cerrinho da Chã, o voo rasante de uma ave noturna, que o Manel de imediato disse ser um latibó, lançou a conversa sobre o mocho, que já havia algum tempo que tinha deixado de se ouvir. O Manel confirmou: - quando os mochos cantavam assim, era sinal que tinha morrido alguém, ou ia a morrer. Garantido que ou já estava morto, ou estava acabando! Já tinha ouvido dizer à avó, à ti Balbina e a mais uma catrafada de gente velha.
 – Mas aqui no Monte não morreu ninguém… – disse o Zé, sem no entanto conseguir evitar novo arrepio. E já o Manel argumentava:
- Não morreu aqui, mas morreu de certeza noutro lado; talvez no Balurco, ou além para a Corte... esses bichos têm um instinto tão fino, tão fino, que são capaz de aberruntar gente morta até sabe-se lá onde. - Como iam passando junto a um chaparreiro, o Zé bateu com os cotromelos dos dedos três vezes no pé da árvore, enquanto exclamava:
- Óstia! Que o Diabo seja surdo e mudo. Se tem que morrer alguém, pelo menos que seja lá bem longe!
- O Manel contou ainda que nesse campo havia outros pássaros que também eram meios maniversos. Era o caso das corujas que estavam sempre à espera que morresse alguém, para irem ao cemitério mamar o azeite dos candeeiros que as pessoas  punham lá para alumiar as sepulturas.
 – Nas igrejas então é um ver se te avias…  o padre ou o sacristão põem o azeite nos candeeiros durante o dia, e elas limpam-no à noite! – continuava o Manel. - Já pouco à vontade o Zé retorquiu:
- Porra… vamos lá mudar a merda da conversa, se não esta noite já não durmo descansado!
- Tinham acabado de chegar ao bico do cerro e pararam na eira do lavrador Afonso. Sentaram-se no chão junto à eira, no palheiro do lado norte, e ficaram um pouco em silêncio, a estudar a área circundante, para decidirem a melhor forma de executar o plano. Estavam a cerca de cento e cinquenta metros da “ferroveira” do ti Romão, mais coisa menos coisa, debaixo da qual estava o acampamento dos ciganos. A “ferroveira” era uma árvore enorme, com uma copa que abarcava uma área suficiente para levar quase uma quarta de semente. À sua volta, várias oliveiras também de grande porte formavam um maciço que encobria por completo o acampamento. Do sítio onde estavam, num plano mais elevado, dominava-se por completo toda a área envolvente. As labaredas da fogueira, que se adivinhava enorme pela luz que projetava em redor, apenas eram visíveis pelas luzernas que se escapavam através da folhagem densa das árvores. No silêncio da noite era possível identificar, na conversação que faziam, várias conversas cuzadas, levando a crer que se tratava de um grupo de pessoas bastante grande. O Zé pareceu-lhe ouvir algumas vozes familiares, mas não conseguiu identificar de quem. Depois de discutirem alguns aspetos, o Manel sentenciou:
- Bom… joga-se uma pedra e esperamos um pouco até jogar outra, para eles não saberem de que lado é que elas vêm. Eu jogo as primeiras cinco e depois jogas tu. Arranjamos duas ou três mais compridinhas para zunirem. Não chegam tão longe, mas fazem uma zunida que eles até se arrepiam… "a mai grossa é c’mó pitrol”.
 - Com ataques de risa silenciosos iniciaram a procura de pedras, que foram sendo rigorosamente selecionadas e colocadas num moitanito. Além das redondas para chegarem mais longe, não faltavam três ou quatro das tais compridinhas para zunirem. Reunida a quantidade que acharam ser suficiente, o Manel posicionou-se junto ás pedras, colocou uma na funda e fê-la rodar até tomar embalagem suficiente para um lançamento perfeito. Assim que a pedra foi jogada, deitaram-se de imediato no chão para não serem localizados. Do sítio onde estavam, os ciganos não conseguiam vê-los por causa das árvores, mas mesmo assim era melhor não arriscar, não fosse o Diabo tecê-las e estar algum em campo aberto, fora do acampamento, que os conseguisse lombrigar.
Mas a primeira pedra não surtiu qualquer efeito. Na opinião do Manel devia ter caído no barranco, em cima dalgum moitão de areia que abafou o barulho. O facto é que ninguém pareceu ter dado conta, porque a conversa continuou animada e sem qualquer interrupção.
 Mas se ninguém do grupo deu por nada, o mesmo não se passou com as bestas dos ciganos, que estavam a algumas dezenas de metros do acampamento. Uma delas, alguns segundos depois, pregou um “assopro” que entoou por aquele barranco todo. Fez-se silêncio por uns segundos no acampamento, mas as conversas retomaram logo a seguir o seu ritmo normal. Os ciganos devem ter atribuído a alarme dado pelo animal, a algum bicho que passou junto dele e o assustou.
 - Já “vistes”  as putas das bestas se são sentidas? – atalhou o Manel. – Porra… ainda dizem que as bestas dos ciganos não têm sangue na guelra!
- Deve ter sido algum macho ou mula quinzena – opinou o  Zé em voz baixa - as muares  são muito mais espantadiças do que os burros. A não ser algum burro inteiro, os outros são uns paz d’alma.
- Lá isso é verdade, – anuiu o Manel - mas os ciganos também costumam ter sempre burros inteiros, para lançamento. Mas fosse burro ou muar, o que é certo é que os bichos são muito mais espertos do que a gente. As bestas não nos estão vendo, mas sabem que a gente estamos aqui.
 - O Zé também não estava vendo as bestas, mas punha a cabeça em cima de um cepo, sem medo de a perder, em como naquele preciso momento todas elas estavam embizarradas a olhar naquela direção. Sempre lhe tinha feito espécie como é que os animais conseguiam aberruntar, com tamanha facilidade, a aproximação de uma pessoa ou de outro animal. Com o Maroto era fatal: quando em pleno campo o via virar a cabeça numa direção e afitar as orelhas num ângulo de quarenta e cinco graus, tinha a certeza de que alguma pessoa ou animal se aproximava. Muitas vezes a deteção era feita a mais de quinhentos metros de distância. O pai costumava muitas vezes  levar o Maroto quando ia armar as rateiras. Era trinta vezes melhor do que um cão: era um bom disfarce, não denunciava a presença e localizava atempadamente qualquer intruso ou presença indesejada. Muitas vezes o Zé tinha exclamado com admiração:
- Mas como é que o bicho consegue aberruntar as coisas tão longe? - Ao que o pai respondia:
 - O homem é o bicho mais parvo que há… qualquer “alimal” tem os sentidos muito mais finos que a gente.
- Como não houve qualquer alarme por parte dos ciganos, o Manel levantou-se, colocou nova pedra na funda e jogou-a com gana redobrada. Desta vez sim. Até eles ouviram perfeitamente a pedra bater numa árvore. Deve ter sido perto do acampamento o e grupo também a ouviu, porque de imediato toda a gente se calou. Esquecendo-se do tempo de espera que haviam combinado, o Manel colocou outra pedra na funda, volteou-a cinco ou seis vezes para tomar embalagem e disparou-a em direção à raciada do ti Romão. De imediato se ouviu a zunida inconfundível de uma pedra das compridinhas: zrruuuuuuuuummmmmm! Desta vez a besta espantadiça não se ficou só pelo assopro. Ouviu-se nitidamente a estropeada que fazia quando partiu correndo á’desquatro, enquanto ia pregando mais uns valentes assopros. Do outro lado, no acampamento, soou uma voz cristalina que o Zé identificou de imediato:
- É pá!... Esta trazia fogo nas patas!
- Porra…era o António que devia estar também com os outros moços, ao pé do fogo com os ciganos! Caraças… o que é que aqueles cabrões estão além fazendo? - questionava-se o Zé, enquanto se apercebia que a possibilidade de desconfiarem dele e do Manel era bem maior do que inicialmente julgara,  já que os outros moços que estavam com os ciganos não iriam fazer parte dos suspeitos, quando no outro dia procurassem adivinhar quem tinham sido os engraçadinhos. A voz cristalina do António continuava a ouvir-se dando conselhos e palpites, por sinal bastante certeiros:
 - Não vale a pena procurarem-nos no barranco, que eles não estão aí. Não ouviram a pedra vir fungando lá do outro lado? Eles estão é além na Chã…
- Nova pedra saiu da funda ainda com mais violência do que as anteriores, a avaliar pelo estralo que deu quando bateu no tronco de uma árvore, ou numa pernada grossa.
Foi a gota de água!  Ouviram-se vozes exaltadas praguejando. Aos ouvidos do Zé e do Manel chegaram com clareza as palavras “vamos à busca deles”, e também a voz inconfundível do António a perguntar:
- Então para que é a espingarda? - Nenhum dos dois teve tempo para ouvir a resposta. O Zé, que ainda continuava deitado no chão, levantou-se de um salto como se tivesse sido impelido por uma mola. Mas já o Manel, sem dizer água vai, tinha corrido quase dez metros. Como estavam praticamente no bico do cerro, bastaram três ou quatro  segundos para extraposer para o outro lado e sair da vista do acampamento. À luz clara da lua, continuaram numa carreira louca pela soalheira abaixo, em direção ao Barranco do Deserto. O Manel, que por um lado tinha partido primeiro e por outro tinha a vantagem que mais quatro anos de idade lhe davam ao comprimento das pernas, levava uns bons vinte ou trinta metros de avanço.
O Zé conhecia o terreno como as palmas das suas mãos e sabia que estava ali uma cova. Era um sítio de onde tinham arrancado pedras para fazer a cabeceira da eira, ou alguns dos galinheiros e pocilgos de pedra solta que estavam próximos do local. Mas naquela altura não havia tempo para pensar. Quando o terreno lhe faltou debaixo dos pés, lembrou-se da puta da cova! Aterrou do outro lado do buraco e “arrabolou” uns bons metros pela ladeira abaixo. Mas se muito depressa caiu, mais depressa se levantou. Agora, que a distância que o separava do Manel aumentara significativamente com o percalço, continuou correndo atrás dele enquanto repetia sucessivamente:
 - “espera aí pá!… espera aí pá... espera por mim caralho!”.
- O Manel só parou na cerca das oliveiras, já bem perto do Barranco do Deserto. Olhou para trás pela primeira vez e, numa afegada que demonstrava bem que não estava menos escalfado do que o Zé,  lançou-lhe um - “onde é que ficas-te?
 – Onde é que fiquei, o cacete!… não viste o estalégaço que eu caí? - ripostou o Zé com algum ressentimento. Parou, e ainda com a respiração ofegante arregaçou as calças até aos joelhos e as mangas do pulôver de lã que a mãe lhe tinha feito à entrada do inverno e ficou a observar as pernas e braços doridos. Depois de um rápido exame e enquanto o Manel ria descontroladamente, praguejou um - “cabrã de Deus… que fiquei com os joelhos e os braços todos escalavrados!” - Rapidamente o Manel mudou a conversa para o outro tema:
- Porra… já viste que os gajos tinham uma espingarda?
– E tu já viste se eles calham a virar o canudo para onde a gente estava e amandar uma faísca? – ripostou o Zé. Com ar de conhecedor, o Manel desvalorizava o risco de tal hipótese: – Dalém não havia grande problema… era muito longe e o chumbo quando chegava onde a gente estava, já não trazia força.
– Quem sabe lá… nunca fiando -  atalhou o Zé em tom duvidoso - olha se a gente apanha com dois ou três bagos de chumbo p’las nalgas!
- Xóstia! – exclamou o Manel, enquanto levava a mão ao cu das calças e acoçava com energia, como se de repente tivesse sido atingido por bagos de chumbo imaginários. Continuaram as piadas e, enquanto riam com gargalhadas abafadas, começaram a dirigir-se para o Monte.
O Zé pareceu-lhe ver um vulto deslizar na sombra projetada pelas paredes escuras de pedra, junto ao boqueirão do palheiro do Ti Serafim, mas não teve a certeza se era gente. Entraram no Monte e dirigiram-se para a casa da Ti Balbina, local onde era costume muitas pessoas do Monte juntarem-se para fazer serão. Debaixo da enorme chaminé, ardia um convidativo fogarelo. À volta, várias pessoas do Monte tinham esgotado a lotação das cadeiras. O Manel sentou-se num cepo de chaparreiro e o Zé numa faxina de lenha, que junto à chaminé aguardavam a sua vez de serem queimados, e ficaram a ouvir as conversas. Havia sempre quem contasse histórias interessantes; coisas do outro tempo, judiarias e fenezas de homens valentes, dificuldades e histórias de tempos malinos; do tempo da fome; da guerra de Espanha e até da de França, das mondas e acefas no Alentejo, etc., etc.
Por várias vezes o Zé pareceu-lhe ver na cara da Ti Balbina  um sorriso manhoso e trocista, quando olhava de relance para ele e para o Manel. Agora, juntando dois com mais dois, começava a fazer-se luz sobre o que se tinha passado. Recordando o vulto fugidio, na sombra da parede do palheiro do Ti Serafim, tinha agora a certeza de que não era outra coisa senão a Ti Balbina que tinha ido a mijar ou arrear o calhau à Porta da Ombria, e que tinha visto o estrafego todo do sítio donde estava. Aquela parte do Monte, a que chamavam o Cerro e onde ambos moravam próximo da casa da Ti Balbina, era relativamente alta, ultrapassando bastante a altura do Cerrinho da Chã. Á luz clara da lua, a Ti Balbina vira-os a jogar pedras aos ciganos da eira do lavrador Afonso, vira-os fugir, vira a carvandela que ele tinha dado e estivera a observá-los da sombra, quando pararam junto ao Barranco do Deserto, a cerca de cem metros do local onde ela se encontrava. Não devia ter ouvido a maior parte da conversa entre ele e o Manel, nem percebido patavina daquilo que diziam, porque estavam a falar relativamente baixo, mas com certeza que os tirara pela pinta, e quando se foi embora sabia perfeitamente quem eles eram. Se alguma dúvida restasse, tinha sido desfeita quando chegaram juntos pouco depois a casa dela.
Procuraram não dar nas vistas, mas havia sempre os olhares furtivos entre os dois e os sorrisos mal disfarçados, quando se lembravam de um ou outro pormenor da aventura. O Manel soltou mesmo uma valente carcachada quando viu o Zé a coçar nas canelas, por se lembrar da queda que ele deu. A gargalhada soou despropositada e espantou toda a gente, já que não tinha havido qualquer garçola ou dito que a justificasse. A mãe do Manel, que também lá estava a fazer serão, tinha-lhe deitado um olhar reprovador e dito:
- “moço dum cabrão, parece que é parvo!”-  Foi demais para o Zé. Começou a rir também à gargalhada e não conseguindo controlarem-se, saíram os dois fugindo para a rua, perante os olhares espantados de quem estava ao serão. Só a Ti Balbina sabia o que se passava. A cabrona da velha deve ter-se chibado e, além de toda a gente ter ficado a saber, a coisa deve também ter chegado aos ouvidos do pai e da mãe do Zé ainda nessa noite.
Mas agora estava feito e não havia como mudar as coisas! Que tinham procedido mal e ganho um par de galhetas bem dadas não havia dúvida nenhuma, e aquela ia servir-lhe de lição. Procurou animar-se. Também que raio… ninguém se tinha aleijado, ou melhor, ninguém além dele, que ainda lhe doíam os joelhos como o caraças! Por outro lado, embora tivesse culpas no cartório porque, como diz o ditado, “tão ladrão é o que vai à horta como o que fica à porta”, restava o consolo de saber que não tinha jogado uma única pedra. E depois, pensando bem, até houve momentos que tiveram a sua graça, pensou o Zé, enquanto pela primeira vez desde esse dia de manhã, lhe aflorava um leve sorriso aos lábios.


FIM

José Manuel Simão 
maio de 2015