segunda-feira, 10 de setembro de 2018

O PALMA

Sentado a meio da encosta enquanto comia o cascote de pão, com  o toucinho que lhe servia de conduto, olhava pensativo a pequena lancha que subia o rio, lentamente, em direcção a Alcoutim. Acompanhava-a com o olhar, desde que surgira do lado direito, ao desfazer a curva grande, a seguir ás várzeas do Pontal. Seguia junto a terra, empurrada pelos remos que mergulhavam na água, subiam e voltavam a mergulhar, numa cadência certa e monótona.
Desviando por instantes a atenção do pequeno barco, o Palma olhou para o lado esquerdo, estendendo o olhar pela larga curva que o rio descrevia, até perder-se de vista, em frente ás várzeas do Abrigo.
O Palma demorou a atenção no posto da Grandaça, situado num cabeço a escassos duzentos metros do rio e onde se notava uma maior movimentação dos guardas, desde que o barco aparecera na curva do Pontal. Pouco depois uma patrulha descia em direcção ao rio, não restando já qualquer dúvida ao Palma, de que a movimentação que observara tinha a ver com a aproximação da pequena lancha.
- Sacanas do caraças… gandulos de merda! tudo quanto mexe no rio, para eles pode ser contrabando – praguejou irritado, enquanto recordava o insucesso da sua curta carreira de contrabandista.
Tinha tomado a decisão no ano anterior, enquanto alqueivava e apanhava o mato, na mesma courela delgada e barreirenta, onde hoje fazia a sementeira. O Afonso que trabalhava sozinho desde que o Brás fora preso dois meses antes, numa entrega que correra mal em San. Silvestre de Guzmán, tinha-o convidado para fazer uns fretes a Villanueva de los Castillejos. Garantira-lhe que o investimento inicial, de algumas centenas de escudos, poderia ser multiplicado várias vezes em poucas semanas.
As cargas de café que iam passar para Espanha deixariam, com um pouco de sorte, mais de trezentos escudos de lucro cada uma. Na volta trariam de Espanha para Portugal duas cargas de miolo de amêndoa, que fariam subir os ganhos de cada um para perto das quatro notas e meia. Ora esta tinha sido exactamente a quantia que o Palma recebera, nos três meses seguidos que trabalhara de sol a sol como ganhão, na última temporada que deitara na casa  do lavrador Teixeira. Tendo em conta que com um pouco de sorte nas travessias do rio, fariam todo o trajeto em dois ou, na pior das hipóteses, três dias, a proposta era deveras tentadora. Com cinco ou seis viagens, ganharia dinheiro suficiente para comprar a melhor parelha de machos da freguesia de Alcoutim.
Preocupava-o um bocado ter que arriscar o dinheiro que tinha conseguido juntar nos últimos dois anos e que vinha guardando religiosamente para comprar uma muar, que lhe substituísse o burro mais velho, que embicava a cada passo, e volta e meia estava estendido. Mas, a lembrança da parelha de machos que iriam substituir os sacanas dos burros se tudo corresse como planeado, depressa lhe afastou o mau presságio.
Tudo correu lindamente até à hora da travessia e nada fazia prever que as coisas se viessem a complicar. Nessa noite, tinham trazido as cargas nos burros até ao cerro das Pedras e voltara em seguida a levar os bichos ao Monte, enquanto o Afonso ficara de vigia. Quando regressou, puseram as cargas ás costas e seguiram com mil cautelas até avistarem o rio. Passava já da meia noite, mas o Afonso decidira esperar naquele local mais duas horas antes de se aproximarem do rio. Pretendia que lua  descesse o suficiente para se esconder por detrás dos cerros, lançando as sombras protetoras sobre o rio, para fazerem uma travessia com mais segurança. A luz clara da lua, embora fosse ótima para se deslocarem, quando refletida nas águas do rio era um risco acrescido na travessia, uma vez que os guardas tinham andado particularmente ativos naqueles últimos dias. Na noite anterior, um grupo da zona do Pereiro tinha sido surpreendido pelos homens do sargento Alberto e tinham perdido algumas cargas. O Afonso não queria arriscar ser localizado facilmente, e só deu ordem de marcha quando a lua despareceu para as bandas do Marmeleiro. Passava já das três da manhã, quando se dirigiram para a boca do Barranco do Vinagre, onde estava combinado fazerem a travessia. O Afonso foi o primeiro a passar, recomendando-lhe que só deveria começar a travessia depois dele chegar ao outro lado e verificar que a zona estava livre. As marés eram mortas e a corrente não o arrastaria para muito longe, tornando a travessia relativamente fácil.
Uma vez feita a travessia procurariam alcançar a fazenda do Domingos, um português casado com uma espanhola e radicado em Espanha havia alguns anos. As cargas seriam colocadas no palheiro, onde ficariam enterradas na palha até à noite seguinte. Eles ficariam por lá com o Domingos e dar-lhe-iam uma ajuda na poda da vinha, situação que funcionaria também como alibi, caso alguém com ligações à Guarda Civil ou Carabineros os visse por ali.
Cerca de meia hora depois de o Afonso ter passado, o Palma começou a preparar-se. Despiu a roupa e colocou-a junto à carga, dentro do oleado, preparando-se para iniciar a travessia. Foi nessa altura que rebentou o pandemónio. Nas suas costas, surgem três vultos em cima da barreira e, enquanto dois disparavam vários tiros, o outro atirou-se quase em voo na sua direcção, enquanto gritava:
- Alto! Pára que eu já sei quem és! - Instintivamente, fazendo justiça à sua fama de bom nadador, o Palma saltou para a água, mergulhou e quando voltou à superfície estava já protegido nas abas do canavial. Lentamente, deixou arrastar-se na vazante, enquanto os guardas contornavam o canavial, correndo pela várzea, na ânsia de descobrir se ele saía para terra. Alapardou-se junto à barreira, disposto a esperar que os guardas abandonassem a zona. Enquanto estivesse na água estaria seguro, que o guarda era bichinho que não molhava o fato. Cerca de uma hora mais tarde, saiu cautelosamente da água rastejando até á várzea. Estava praticamente em frente ao Posto da Grandaça, e chegavam-lhe agora claramente aos ouvidos ruidosas gargalhadas, vindas de dentro do posto.
Só agora o Palma tomava consciência da delicada situação em que se encontrava! Tiritando com frio, descalço, e em pelão como Deus o mandou ao mundo, olhava para a madrugada que rompia, enquanto se apercebia que seria já impossível percorrer naquele estado, antes de amanhecer, a légua que o separava do Monte. A única hipótese seria convencer o moiral do lavrador Teixeira, que dormia junto ao gado, nas alturas da Herdade do Pontal, a ir buscar-lhe a roupa ao Monte.
Enquanto se dirigia para a malhada do gado, pensava como era agora bem maior a distância que o separava do cobiçado macho. O dinheiro que tinha empatado na carga de café que agora estava nas mãos do cabo Rocha, no Posto da Grandaça, tinha-o conseguido juntar á custa do suor derramado nas temporadas de ceifas e lavoura, á do lavrador Teixeira.
Conhecera a voz do cabo Rocha, quando há pouco lhe berrara que parasse e quase lhe deitara os galapos. Embora morassem paredes-meias, nunca gramara aquele cabrão daquele bimbo, que há alguns anos viera das brenhas trasmontanas. O facto da Adelaide, a quem na altura arrastava a asa havia já algum tempo, se ter atirado como um pisco a um bicho de esteva, quando o Rocha lhe acenou, foi uma que lhe ficou atravessada. E agora ainda mais esta! Mas um dia havia de pagá-las… oh se havia! Passaria a salto para a França, quando o Parrinha lhe arranjasse o trabalho há muito prometido. Nessa altura, o Rocha pagava-as todas juntas, porque ia mamar a maior gramadura da vida dele. Tão certo como ele chamar-se Palma! 
Nesse dia o Palma tinha constatado que um azar nunca vem só porque, quando chegou à malhada do gado, verificara que o moiral do lavrador Teixeira tinha as ovelhas na rede e fora dormir a casa. O Palma não teve outro remédio senão por-se a caminho do Monte. Recordava agora com algum divertimento, a humilhação que sofrera nessa manhã, quando à entrada de uma azinhaga no Monte dera de caras com a Ti Benvinda a caminhar na sua direção. Na altura, enquanto corria em direção à sua casa que já estava perto, tinha gritado para a mulher: - Ti Benvinda! Você agora não é bem vinda... vire a cara para o lado que o badalo vai batendo a um lado e  ao outro!"
- Virando novamente a atenção para o rio, o Palma reparou que a lancha tinha passado já a zona do posto e seguia, com o mesmo ritmo, em frente ao Vale dos Condes, não demorando muito a desaparecer na curva do Abrigo. Era provavelmente um pescador que regressava da faina da pesca e se dirigia a Alcoutim ou Sanlúcar ou, quem sabe, que transportara para a outra banda, alguns contrabandistas e respetivas cargas. O certo é que os guardas haviam arrepiado caminho e estavam a chegar novamente ao Posto, não tendo importunado o solitário barqueiro, que provavelmente nem se apercebeu das atenções que tinha despertado.
O Palma guardou no alforge a taleiga do almoço, tirou as cevadeiras aos burros e voltou a prendê-los no arado. Até ao pôr do sol, enquanto o arado rasgava a terra lentamente, num vai e vem incansável, iria manter com os burros uma guerreia contínua, berrando em voz alta todos os adjetivos do seu vasto vocabulário, em matéria de injúrias, enquanto pensava no cabo Rocha.

José Manuel Simão
Janeiro de 2006