O PALMA
Sentado
a meio da encosta enquanto comia o cascote
de pão, com o toucinho que lhe
servia de conduto, olhava pensativo a
pequena lancha que subia o rio, lentamente, em direcção a Alcoutim.
Acompanhava-a com o olhar, desde que surgira do lado direito, ao desfazer a
curva grande, a seguir ás várzeas do Pontal. Seguia junto a terra, empurrada
pelos remos que mergulhavam na água, subiam e voltavam a mergulhar, numa
cadência certa e monótona.
Desviando
por instantes a atenção do pequeno barco, o Palma olhou para o lado esquerdo,
estendendo o olhar pela larga curva que o rio descrevia, até perder-se de
vista, em frente ás várzeas do Abrigo.
O
Palma demorou a atenção no posto da Grandaça, situado num cabeço a escassos duzentos metros do rio e onde se notava uma maior
movimentação dos guardas, desde que o barco aparecera na curva do Pontal. Pouco
depois uma patrulha descia em direcção ao rio, não restando já qualquer dúvida
ao Palma, de que a movimentação que observara tinha a ver com a aproximação da
pequena lancha.
-
Sacanas do caraças… gandulos de merda!
tudo quanto mexe no rio, para eles pode ser contrabando – praguejou irritado,
enquanto recordava o insucesso da sua curta carreira de contrabandista.
Tinha
tomado a decisão no ano anterior, enquanto alqueivava
e apanhava o mato, na mesma courela delgada e barreirenta, onde hoje
fazia a sementeira. O Afonso que trabalhava sozinho desde que o Brás fora preso
dois meses antes, numa entrega que correra mal em San. Silvestre de Guzmán,
tinha-o convidado para fazer uns fretes a
Villanueva de los Castillejos. Garantira-lhe que o investimento inicial, de
algumas centenas de escudos, poderia ser multiplicado várias vezes em poucas
semanas.
As
cargas de café que iam passar para Espanha deixariam, com um pouco de sorte,
mais de trezentos escudos de lucro cada uma. Na volta trariam de Espanha para
Portugal duas cargas de miolo de amêndoa, que fariam subir os ganhos de cada um
para perto das quatro notas e meia.
Ora esta tinha sido exactamente a quantia que o Palma recebera, nos três meses
seguidos que trabalhara de sol a sol
como ganhão, na última temporada que deitara na casa do lavrador Teixeira. Tendo em conta que com
um pouco de sorte nas travessias do rio, fariam todo o trajeto em dois ou, na
pior das hipóteses, três dias, a proposta era deveras tentadora. Com cinco ou
seis viagens, ganharia dinheiro suficiente para comprar a melhor parelha de machos da freguesia de Alcoutim.
Preocupava-o
um bocado ter que arriscar o dinheiro que tinha conseguido juntar nos últimos
dois anos e que vinha guardando religiosamente para comprar uma muar, que lhe substituísse o burro mais
velho, que embicava a cada passo, e volta e meia estava estendido. Mas, a lembrança da parelha de machos que iriam
substituir os sacanas dos burros se
tudo corresse como planeado, depressa lhe afastou o mau presságio.
Tudo
correu lindamente até à hora da travessia e nada fazia prever que as coisas se
viessem a complicar. Nessa noite, tinham trazido as cargas nos burros até ao
cerro das Pedras e voltara em seguida a levar os bichos ao Monte, enquanto o Afonso ficara de vigia. Quando
regressou, puseram as cargas ás costas e seguiram com mil cautelas até
avistarem o rio. Passava já da meia noite, mas o Afonso decidira esperar
naquele local mais duas horas antes de se aproximarem do rio. Pretendia que lua
descesse o suficiente para se esconder
por detrás dos cerros, lançando as sombras protetoras sobre o rio, para fazerem
uma travessia com mais segurança. A luz clara da lua, embora fosse ótima para
se deslocarem, quando refletida nas águas do rio era um risco acrescido na
travessia, uma vez que os guardas tinham andado particularmente ativos naqueles
últimos dias. Na noite anterior, um grupo da zona do Pereiro tinha sido
surpreendido pelos homens do sargento Alberto e tinham perdido algumas cargas.
O Afonso não queria arriscar ser localizado facilmente, e só deu ordem de
marcha quando a lua despareceu para as bandas do Marmeleiro. Passava já das três da
manhã, quando se dirigiram para a boca do
Barranco do Vinagre, onde estava combinado fazerem a travessia. O Afonso foi o
primeiro a passar, recomendando-lhe que só deveria começar a travessia depois
dele chegar ao outro lado e verificar que a zona estava livre. As marés eram
mortas e a corrente não o arrastaria para muito longe, tornando a travessia
relativamente fácil.
Uma vez feita a travessia procurariam alcançar a fazenda do Domingos, um
português casado com uma espanhola e radicado em Espanha havia alguns anos. As
cargas seriam colocadas no palheiro, onde ficariam enterradas na palha até à
noite seguinte. Eles ficariam por lá com o Domingos e dar-lhe-iam uma ajuda na
poda da vinha, situação que funcionaria também como alibi, caso alguém com
ligações à Guarda Civil ou Carabineros os visse por ali.
Cerca
de meia hora depois de o Afonso ter passado, o Palma começou a preparar-se.
Despiu a roupa e colocou-a junto à carga, dentro do oleado, preparando-se para
iniciar a travessia. Foi nessa altura que rebentou o pandemónio. Nas suas
costas, surgem três vultos em cima da barreira
e, enquanto dois disparavam vários tiros, o outro atirou-se quase em voo na sua
direcção, enquanto gritava:
-
Alto! Pára que eu já sei quem és! - Instintivamente, fazendo justiça à sua fama
de bom nadador, o Palma saltou para a água, mergulhou e quando voltou à superfície
estava já protegido nas abas do
canavial. Lentamente, deixou arrastar-se na vazante, enquanto os guardas
contornavam o canavial, correndo pela várzea, na ânsia de descobrir se ele saía
para terra. Alapardou-se junto à
barreira, disposto a esperar que os guardas abandonassem a zona. Enquanto
estivesse na água estaria seguro, que o guarda era bichinho que não molhava o
fato. Cerca de uma hora mais tarde, saiu cautelosamente da água rastejando até
á várzea. Estava praticamente em frente ao Posto da Grandaça, e chegavam-lhe
agora claramente aos ouvidos ruidosas gargalhadas, vindas de dentro do posto.
Só
agora o Palma tomava consciência da delicada situação em que se encontrava! Tiritando com frio, descalço, e em pelão como Deus o mandou ao mundo, olhava para a madrugada que rompia,
enquanto se apercebia que seria já impossível percorrer naquele estado, antes
de amanhecer, a légua que o separava do Monte. A única hipótese seria convencer
o moiral do lavrador Teixeira, que
dormia junto ao gado, nas alturas da
Herdade do Pontal, a ir buscar-lhe a roupa ao Monte.
Enquanto
se dirigia para a malhada do gado,
pensava como era agora bem maior a distância que o separava do cobiçado macho. O dinheiro que tinha empatado na carga de café que agora
estava nas mãos do cabo Rocha, no Posto da Grandaça, tinha-o conseguido juntar
á custa do suor derramado nas temporadas de ceifas e lavoura, á do lavrador
Teixeira.
Conhecera
a voz do cabo Rocha, quando há pouco lhe berrara que parasse e quase lhe
deitara os galapos. Embora morassem paredes-meias, nunca gramara aquele cabrão daquele bimbo, que
há alguns anos viera das brenhas trasmontanas.
O facto da Adelaide, a quem na altura arrastava
a asa havia já algum tempo, se ter
atirado como um pisco a um bicho de esteva, quando o Rocha lhe acenou, foi uma que lhe ficou atravessada. E agora ainda mais esta!
Mas um dia havia de pagá-las… oh se havia! Passaria a salto para a França, quando o Parrinha lhe arranjasse o trabalho
há muito prometido. Nessa altura, o Rocha pagava-as todas juntas, porque ia mamar a maior gramadura da vida dele. Tão certo como ele chamar-se Palma!
Nesse dia o Palma tinha constatado que um azar nunca vem só porque, quando chegou à malhada do gado, verificara que o moiral do lavrador Teixeira tinha as ovelhas na rede e fora dormir a casa. O Palma não teve outro remédio senão por-se a caminho do Monte. Recordava agora com algum divertimento, a humilhação que sofrera nessa manhã, quando à entrada de uma azinhaga no Monte dera de caras com a Ti Benvinda a caminhar na sua direção. Na altura, enquanto corria em direção à sua casa que já estava perto, tinha gritado para a mulher: - Ti Benvinda! Você agora não é bem vinda... vire a cara para o lado que o badalo vai batendo a um lado e ao outro!"
Nesse dia o Palma tinha constatado que um azar nunca vem só porque, quando chegou à malhada do gado, verificara que o moiral do lavrador Teixeira tinha as ovelhas na rede e fora dormir a casa. O Palma não teve outro remédio senão por-se a caminho do Monte. Recordava agora com algum divertimento, a humilhação que sofrera nessa manhã, quando à entrada de uma azinhaga no Monte dera de caras com a Ti Benvinda a caminhar na sua direção. Na altura, enquanto corria em direção à sua casa que já estava perto, tinha gritado para a mulher: - Ti Benvinda! Você agora não é bem vinda... vire a cara para o lado que o badalo vai batendo a um lado e ao outro!"
- Virando
novamente a atenção para o rio, o Palma reparou que a lancha tinha passado já a
zona do posto e seguia, com o mesmo ritmo, em frente ao Vale dos Condes, não
demorando muito a desaparecer na curva do Abrigo. Era provavelmente um pescador
que regressava da faina da pesca e se dirigia a Alcoutim ou Sanlúcar ou, quem
sabe, que transportara para a outra banda, alguns contrabandistas e respetivas
cargas. O certo é que os guardas haviam arrepiado
caminho e estavam a chegar novamente ao Posto, não tendo importunado o
solitário barqueiro, que provavelmente nem se apercebeu das atenções que tinha
despertado.
O
Palma guardou no alforge a taleiga do almoço, tirou as cevadeiras aos burros e voltou a
prendê-los no arado. Até ao pôr do sol, enquanto o arado rasgava a terra
lentamente, num vai e vem incansável, iria manter com os burros uma guerreia contínua, berrando em voz alta
todos os adjetivos do seu vasto vocabulário, em matéria de injúrias, enquanto
pensava no cabo Rocha.
José
Manuel Simão
Janeiro
de 2006