sexta-feira, 21 de dezembro de 2018

A Mensagem
Tinha fama de teimoso. As más línguas afirmavam à boca cheia que o Costa “era mai torto cum garrocho”! Quando encorneirasse para um lado, não valia a pena virem com apostinhas de merda, que a dele era para levar avante.
Pessoalmente arrenegava a fama que lhe tinham dado. Considerava-se um gajo com eles no sítio e não admitia que cabrão nenhum lhe fizesse o ninho atrás da orelha. Com uma noção clara do que isso lhe poderia custar, fazia ainda assim questão de não abdicar de pensar pela sua própria cabeça e se alguma coisa não lhe agradava, dizia-o na cara e não nas costas do freguês, como muita da gentinha sonsa que lhe apontava o dedo. Considerava-se uma pessoa de valores, que não conseguia engolir determinadas coisas e a quem a vaidade, as injustiças e os abusos praticados contra os desgraçados que nada tinham, por quem teve a sorte de nascer em berço de ouro, ou simplesmente com o cu virado para a lua, lhe davam literalmente volta ao estômago. Mas isso era outra história que a maioria não entendia, na sua cegueira de lhe apregoarem a teimosia e muitos lhe apontarem mesmo alguma falta de trambelho.
O episódio que lhe granjeara a fama de teimoso, tinha a ver com a forma estranha como pusera fim à sua carreira de guarda fiscal. Ninguém entendia como é que alguém que tinha tido um emprego certo, que deveria ter defendido com unhas e dentes, o deixara ir por água abaixo por pura casmurrice, voltando à vida de escravo, própria de quem trabalha no campo. É certo que o Costa não aturava patrões e além do trabalho agrícola da sua própria casa, era também um bom abegão, dedicando bastante tempo a esta atividade. Fazia como ninguém nas redondezas umas cangalhas, um arado, umas zangarilhas, ou mesmo uma queijeira, mas não era uma ocupação com ganhos garantidos. As encomendas de peças novas não abundavam, e uma vez feitas era muitas vezes necessário esperar pelo pagamento até que o cliente vendesse algum borrego ou chibo num  mercado do Pereiro ou na feira de S. Marcos, ou então algumas arrobas de amêndoas no fim do verão, que lhe permitisse arrecadar algum dinheiro para pagar a encomenda. Pelo contrário, com o emprego na guarda, teria um ordenado garantido e embora tivesse também horas malinas e duras de roer, pelo menos não vergava a mola. Se fosse esperto e fizesse como os mais, podia ainda fechar os olhos a muita coisa que se passava  naquela fronteira, que haveria sempre alguém pronto a convidá-lo e contrabandistas dispostos a besuntar-lhe as mãos. Mas o Costa não esteve pelos ajustes, e o seu tempo de guarda foi sol de pouca dura.
***
Só um gajo muito esgroviado ou meio manieco, é que se empinava com o sargento Alberto, como o Costa tinha feito. A coisa até dava risa e se não fosse saber-se de fonte limpa que tinha sido mesmo assim, toda a gente diria que era uma passajola.
 Com pouco mais de um ano de guarda, o Costa tinha sido colocado no posto de Guerreiros do Rio. O posto era comandado  pelo sargento Alberto que fazia também  rondas e a respetiva coordenação dos postos  que se encontravam situados no troço de rio entre o Alcaçarinho e o Barranco das Pereiras, ou seja, os postos que estavam situados entre Alcoutim e  o limite com o vizinho  concelho de Castro Marim. Todos esses postos eram comandados por cabos, e só a Secção em Alcoutim era comandada por um oficial, normalmente com a patente de tenente e a quem respondiam todos os postos da região. O Costa conhecia a maioria dos camaradas e os comandantes dos postos todos. Embora houvesse sempre uma ou outra ovelha ranhosa, a maioria era gente de bem. No que se refere aos comandantes de posto, haviam alguns que também não eram grandes peças, como era o caso do cabo Rocha do posto da Grandaça e do cabo Lino do posto do Pontal, mas o artista mais malino era mesmo o sargento Alberto.
Tinha vindo da GNR e dizia-se que, nas zonas por onde andara, tinha sido um autêntico terror. Quando deitava os galapos a algum infrator, fazia questão de que nenhum deixasse o posto sem levar uma malha. Gabava-se depois de que quando pegava no cavalo marinho, os gajos atém amarinhavam pelas paredes do posto. Mas a quem o sargento Alberto infligia maior receio era aos contrabandistas, pelo facto de dar instruções aos seus homens para atirar, senão a matar, pelo menos na direção dos fugitivos e de ele próprio não poupar nas balas sempre que tinha oportunidade. A coisa só tinha parado quando, depois de o Peres ter sido atingido mortalmente quando fugia com uma carga de contrabando, o sargento Alberto ter aparecido um dia cheio de nódoas roxas. Justificou-se dizendo que a mula em que ia todos os dias para casa tinha embicado e pregado com ele no chão. Mas, segundo constava, a verdade tinha sido outra. Enquanto se deslocava para uma ronda ao posto da Grandaça, havia sido surpreendido por três homens com a cara tapada, dizia-se que camaradas do Peres, que lhe deram uma gramadura daquelas antigas. O sargento, que parara para matar a sede no poço do Vinagre, nem teve tempo de reagir. Quando soube, estava caído no chão. Havia sido agarrado por dois homens que lhe seguraram os braços e lhe mantiveram a cara contra o chão, enquanto um terceiro lhe retirava a pistola que trazia no coldre. Depois de desarmado tinha sido levantado em peso pelos dois homens, que o puseram de pé virado para o poço para que visse bem o homem que lhe havia tirado a pistola, atirá-la para dentro do poço. De repente o sargento sentiu-se livre das mãos que o seguravam. Os três homens de cara tapada e que ainda não haviam pronunciado uma única palavra, cercavam o sargento, cada um empunhando a sua vara de jambuzo. Então o silêncio que havia reinado até essa altura foi subitamente quebrado: primeiro pelo zunir das varas antes de atingirem a farda cinzenta, e logo a seguir pelos berros do sargento Alberto. As varas haviam sido escolhidas por mãos sabedoras, tendo em vista o destino que pretendiam dar-lhe e os resultados que pretendiam obter: infligirem um sofrimento bastante doloroso, mas não fazerem o destinatário do tratamento perder a consciência. Desta forma as varas eram verdes para terem maleabilidade suficiente para não partirem; eram finas para não partirem ossos e principalmente eram dirigidas com uma precisão cirúrgica a pontos do corpo onde não fizessem perigar a vida do sargento.
O facto é que o tratamento resultou e a partir daí a perseguição do sargento aos contrabandistas reduziu-se bastante. Mas se deixou de perseguir os contrabandistas da forma como o fazia, passou a direcionar a sua raiva contra os seus próprios homens. Tornou-se bastante mais autoritário e agressivo, ao ponto de muitas vezes ajudiar com os seus subordinados.
***
Foi na sequência de um destes episódios, ou melhor, na tentativa dele, que o sargento Alberto e o Costa partiram a palha a coices. Aquele verão tinha estado particularmente quente. Desde a acefa que os dias estavam uma brasa, e naquele dia de agosto a velha estava ainda mais empenhada em meter lenha no forno. Seriam umas três da tarde quando o sargento Alberto chamou o Costa à sua presença. Depois de ter pedido licença para entrar e esboçado o  gesto de continência a que o superior nem se dignou responder, o Costa ficou à espera que o sargento lhe dirigisse a palavra. Estava embizarrado nuns papéis que tinha na frente com o se fossem a coisa mais importante do mundo, mas que, para o Costa, não era mais do que uma forma de ignorá-lo e fazê-lo esperar deliberadamente. Embora lhe estivesse já a dar marfação da atitude do sargento, não pôde deixar de sorrir ao ver um envelope fechado em cima da mesa. O Costa identificou-o de imediato, como sendo um dos muitos que nos últimos tempos continham as mensagens que o sargento Alberto enviava  para a Secção para Alcoutim, três ou quatro vezes por semana, desde que acontecera o acidente que tirou a vida ao Peres durante a fuga. Era voz corrente que o sargento Alberto tinha levado uma raspança do tenente Vasco, e que lhe tinha sido tirado muito do poder de ação. O comandante obrigava-o a transmitir todas a informações que eram recolhidas no terreno sobre as movimentações dos contrabandistas. Estava-lhe vedado organizar ações de repressão, que não fossem do conhecimento e não estivessem autorizadas pelo comando. Isto era de certa forma humilhante para o sargento, ele que tinha tido desde sempre autonomia para trabalhar à vontade e tinha sido o principal responsável pela esmagadora maioria das apreensões de contrabando feitas naquela zona da fronteira. Para além do mais, com a mania do tenente de querer meter o bedelho em tudo, nos últimos tempos praticamente não tinha havido apreensões.
O Costa imaginou que o motivo pelo qual tinha sido chamado fosse precisamente o envelope da mensagem e não pôde deixar de pensar consigo próprio:
 – “filho d’puta” fazes-me ir levar a carta a esta hora ao posto do Montinho! 
A convicção do Costa baseava-se no facto de, desde que tinha sido implementado o processo da entrega amiúde dos relatórios da recolha de informações, ter sido montado um sistema de estafeta para fazer chegar as mensagens ao comando, em Alcoutim. Assim, quando as mensagens saíam do posto de Guerreiros do Rio, o que acontecia na maioria das vezes, por ser a “base” do sargento Alberto, as mesmas eram levadas e entregues por um guarda no posto mais próximo, neste caso no posto do Montinho. Aí um guarda desse posto entregava-a no posto do Pontal e assim sucessivamente até a mensagem ser entregue em Alcoutim pelos homens do posto do Alcaçarinho, o mais próximo de Alcoutim. Desta forma cada homem fazia cerca de quatro ou cinco quilómetros a andar, considerando que os postos junto à margem do rio estavam situados com cerca de dois quilómetros de intervalo.
Finalmente o sargento Alberto afastou os papéis para o lado, pegou no envelope, estendeu-o ao Costa e disse:
- Tome… é para ir entregar a mensagem a Alcoutim!
- Ao posto do Montinho, quer você dizer – retorquiu o Costa convencido de que o sargento não se tinha explicado bem.
- Não… eu quis dizer exatamente o que disse. Você vai levar a mensagem a Alcoutim – respondeu o sargento acentuando bem as palavras.
É caso para se dizer que o Costa num primeiro momento ficou assarampado. Estaria a ouvir bem? Ir a andar até Alcoutim, aquela hora, com uma brasa daquelas, seguramente de mais de quarenta graus?  Palmilhar dez quilómetros até ao posto de Alcoutim, e outros tantos no regresso depois de entregar a carta? Então mas aquele coirão estaria bom da cabeça para lhe dar uma ordem daquelas?
Com a calma que lhe era caraterística, o Costa argumentou:
- Ó meu sargento…mas está um calor do cacete para um homem ir agora a butes até à vila. Se uma pessoa está escalmorrada aqui dentro do posto, imagine o que é ir a andar a esta hora até Alcoutim.
- Tenha paciência, mas são ossos do ofício!
Numa última tentativa desesperada, o Costa ainda argumentou:
- Porra meu sargento… mas a mensagem é assim tão importante que não possa ser levada como é costume, ou pelo menos esperar até à tardinha, quando não haja tanto calor?
- Sr. Costa… você está aqui para fazer o que lhe mandam, porque para mandar estou cá eu! Eu é que decido a que horas é que as mensagens são enviadas e quem é que as vai levar a Alcoutim. Esta vai agora e é você que vai lá levá-la!
Pode dizer-se que o  Costa deixou de ver e o sangue começou a ferver-lhe nas veias. A vontade que tinha era deitar-lhe as unhas ás goelas, até que o gajo deitasse um palmo de língua fora!
- Cabrão do caralho, que és  mais vil que a carne de cão…mas não te vai valer o sagrado – pensava o Costa já com uma decisão tomada. Ainda assim, quando falou foi com a mesma calma e  no mesmo tom do costume:
- Meu sargento… eu com este calor não vou a Alcoutim levar a mensagem!
O sargento Alberto não estava habituado a ser contrariado. Levantou-se de um salto e, todo empelricado e de dedo em riste para o Costa, disparou:
- Sr. Costa… você pode ter a certeza que vai levar esta mensagem a Alcoutim e é já!
- Ia-lhe dando uma coisinha má quando ouviu a resposta do subordinado:
- Sr. Sargento…você pode ter a certeza que eu não vou a Alcoutim levar essa mensagem, nem agora nem nunca!
- Sr. Costa… você recusa-se a obedecer e eu garanto-lhe que  você é expulso da guarda!

- Sr. Alberto… eu sou expulso da guarda, mas garanto-lhe que não vou a Alcoutim levar a puta da carta!

José Manuel Simão - Novembro de 2014