O PÃO
Meteu a mão pelo
postigo aberto e puxou a tramela da
porta, enquanto olhava para trás e dizia para as duas crianças que o seguiam:
- Fechem os
olhos… só os abrem quando eu mandar!
Empurrou a porta
que se abriu de par em par e
desviou-se para o lado para as duas crianças passarem. Encostou-se à ombreira da porta e, rindo com gosto,
deu a esperada autorização:
- Podem abrir os
olhos! - Seguiu-se um curto silêncio, logo interrompido pela voz ansiosa do
pequeno Martinho:
– Onde é que está
a coisa pai? - Estava parado entremeio da porta com a irmã, enquanto
ambos percorriam com olhar inquiridor a pequena divisão da cozinha.
– Em cima da mesa não está nada… continuava o
pequeno Martinho, enquanto o pai os afastara de repente para o lado, entrara de
roldão e ficara especado no meio de casa. O Ti Simão não queria acreditar! Abria e
fechava a boca, como um peixe fora de água, antes de conseguir articular
palavra.
– Não pode ser… sumiu-se! – exclamou, enquanto de olhos esbugalhados olhava à sua
volta e até para o telhado da pequena
divisão, como se o que procurava pudesse pairar junto ao mesmo. Correu para a
pequena mesa de madeira, enquanto a apontava com o dedo e dizia:
- Pu-lo
aqui in’dagora… dexi-o aqui em cima! Palmaram-me
o pão… limparam-mo! Abriu a gaveta da
pequena mesa e espreitou, como se tivesse esperança de que alguém lho tivesse
escondido, só por judiaria. A voz
avolumou-se, enquanto cerrava os punhos e gritava completamente fora de si:
- Ah macago na hóstia, que eu mato o cabrão ou a puta que me roubou o pão… dou
cabo deles! Assustado com a explosão de raiva do pai, o pequeno Martinho
choramingava encolhido junto à parede, enquanto a Dolores, meia dúzia de anos
mais velha que o irmão e quase a entrar na adolescência, olhava também assovacada para o pai. Nunca o tinha
visto assaganhado daquela forma: cara
encarnada como um tomate, veias do pescoço dilatadas, branco dos olhos raiado
de sangue, rangia os dentes e despejava um chorrilho de ameaças, enquanto de
braços tesos e estendidos para a frente abria e fechava as mãos, como se
estivesse a apertar o gasganhol ao
autor do roubo do pão.
– Se lhe
ponho as unhas em cima… se lhe deito as mãos ás goelas… faço-lhe deitar um palmo de língua fora; esmigalho-lhe a
cabeça… tarrinco-lhe os ossos!
Quando ouviu o lavarito, a Ti Domingas tinha acabado de
apanhar a galinha caroca mais velha,
que já tinha a sentença lida. Nesse
dia de manhã, nem a tinha apanhado como fez com as outras para verificar se
tinha ovo. Todos os dias, logo de manhanita,
procedia ao mesmo ritual: destapava a porta do galinheiro, apanhava as galinhas
uma a uma e metia-lhes o dedo maminho
no cu, para ver se tinham ovo. As que
tivessem ficavam encerradas até largarem o respetivo, não fosse dar-se o caso
de alguma ir pôr por fora. As que não
tinham ovo eram soltas para irem procurar a respetiva alimentação onde muito
bem entendessem. Cada uma desenrascava-se como podia: sementes, formigas,
gafanhotos e outras coisas menos nobres que encontravam nas estrumeiras ou nos cagadoiros, tudo servia para encher o papo. No dia anterior não
tinha mesmo escapado um escarapão que
a ti Domingas tinha matado com uma cana, quando o encontrou dentro do linheiro dos ovos, e que jogara
depois para a estrumeira.
Largou a galinha,
soltou um “ai Jasus… q’ué que saria”,
e correu para casa. Entrou esbaforida
e enquanto olhava à sua volta ainda em sobressalto, inquiria o ti Simão:
- Oh homem…o que
é que foi? Que espalhafato é esse? Santiss’me Sacramento, que pensei que se
tinha dado uma desgraça!
– O pão… o mé pão…ai se eu sonho quem foi! – continuava o ti Simão. Na rua tinha-se juntado um magote de gente que acudira aos gritos do ti Simão. A ti Donisa e mais cinco ou seis mulheres que estavam com ela no forno
do monte, algumas vizinhas que estavam por perto; meia dúzia de gaiatos, e até
o ti Sequeira que tinha chegado manquejando,
encostado ao cajado, com uma desenvoltura
que havia muito tempo que ninguém lhe via.
- Oh, valha-me
Deus… mas quem é que mexia no pão?
Não seria algum bicho… algum cão ou
algum gato? – comentava a ti Domingas com pouca convicção.
– Qual bicho, nem merda! – explodiu o ti
Simão. - Não foi cão que a porta estava fechada e com a tramela bem entregue. Um
gato não era capaz de saltar p’lo postigo
com um pão inteiro nos dentes… nem levantá-lo do chão, quanto mais saltar p’lo postigo! Quando muito ratava-lhe um
pedaço.
O ti Simão ia-se
acalmando pouco a pouco. Tinha saído para a rua e sentara-se no pial junto à
porta, visivelmente escreçoado,
enquanto no grupo que se juntara na rua, se continuavam a discutir hipóteses e
a lançar palpites. A meia voz, numa espécie de cisma consigo próprio, o ti
Simão ia comentando:
– Puta de sorte… hóstia dum cabrão, que quanto mais magro está o cão mais se lhe
acolhem as pulgas. Mas para que é uma criatura
sofrer tanto nesta vida… cabrã de
Deus! Cabisbaixo, numa dolorosa resignação, o ti Simão entrou numa cisma
profunda, fazendo para si próprio uma retrospetiva dos últimos tempos.
***
Havia vários anos
que as coisas vinham correndo mal, mas lá tinha ido apelando e conseguido arranjar sustento para matar a fome à família
durante a maior parte do ano. As courelas
que tinha eram poucas e ruins e nas
sementeiras dos últimos anos, raramente tinha conseguido que pagassem com mais de duas ou três sementes.
Mal dava para fazer pão metade do ano, mas o ti Simão não era homem de baixar
os braços e não havia trabalho que lhe metesse medo. Fosse ele aparecendo!
Durante todo o ano aplicava ou vendia a força dos braços onde fosse necessário,
de forma a arranjar uns cobres que lhe permitissem comprar umas arrobas de
farinha, uns litrinhos de azeite, e outros bens quando fosse possível. Começava
a sua própria sementeira uma boa semana antes do lavrador Teixeira, para quando
este começasse a dele, estar livre para se concertar à do lavrador até final da
época.
O ti Simão era
considerado um dos melhores semeadores da região. Sabia puxar a semente quando
semeava um vale, uma botelha ou outra terra grossa, e aliviar a mão em terra
mais delgada. Como resultado, quando a seara nascia, não vinha junta nem rala, mas sempre no ponto
certo. Quando despontava, raramente
se conhecia o local dos regos das embelgas, como acontecia com a maioria dos
semeadores menos experientes.
Só depois do lavrador dar a sementeira por
terminada, voltava a trabalhar mais alguns dias na sua. A primeira tinha sido
um pouco temporoa e esta última muito seroida, mas paciência, não havia alternativa. Antes da sementeira
já havia deitado umas boas jornas à do lavrador, na preparação das terras.
Primeiro a desmoita, onde cada homem, munido de uma cavadeira de peta,
arrancava pela raiz espinhos lancios,
cardos, funcho, travisqueiras ou
qualquer outro arbusto que tivesse escapado ao ferro da charrua na altura do
alqueive ou do atalho. Terminada a desmoita era necessário gradear e por
fim carregar e esborralhar o esterco. A etapa final era enrregar, mas para essa tarefa o
lavrador recorria exclusivamente ao serviço de dois dos homens mais famosos da
região, na arte de lavrar direito. O ti Serina que trabalhava havia muitos anos
na casa do lavrador Teixeira e o Luís do Marmeleiro, um jovem que o ti Serina
treinara. Dizia com orgulho que o Luís
era do melhorzinho que podia haver, e que há muito era capaz de lhe passar um bigode. Os regos, por vezes
com quase duzentos metros de comprimento, pareciam que tinham sido talhados com
uma corda esticada. Se a embelga
tinha quatro metros numa ponta da torna,
podia ter-se a certeza que na outra ponta a medida era exatamente igual. Os
regos ficavam mais direitos que um fuso
e dava gosto olhar para as embelgas.
Era nesta altura que o ti Simão aproveitava a semana para adiantar a sua
sementeira o mais que pudesse. Saía de casa de madrugada e voltava pela noite
adentro. Quando finalmente terminava a época das sementeiras ficava um pouco
mais liberto. Ao longo do ano era sempre solicitado para deitar mais umas peonadas á do lavrador. Fosse a roçar ou
apanhar mato, podar, cavar ou desencaldeirar
vinha nas várzeas da ribeira ou do rio, ajudar a dar banho ás ovelhas no dia de
S. João, ajudar na debulha ou qualquer outra tarefa, como o ti Simão costumava
dizer, tudo o que vinha à rede era peixe.
Quando o lavrador não solicitava os seus serviços, entretinha-se a fabricar as suas terras. Tinha já uma
boa mancheia de árvores plantadas, principalmente amendoeiras, alfarrobeiras,
figueiras e oliveiras. Embora ainda não dessem fruto e levasse ainda uns bons
anos até poder tirar proveito delas,
sempre era mais uma esperança.
Nas alturas em que o trabalho do campo avagava mais um bocado, o ti Simão
recolhia lenha e fazia carvão para vender. Enquanto o forno de carvão estivesse
a arder, o que podia levar dois ou três dias, o ti Simão não se podia ausentar
do pé dele, fosse dia ou noite. Se o forno abrisse um buraco, tinha que ser
tapado para evitar a entrada de ar, que iria transformar todo o carvão em
cinza, se a situação não fosse corrigida. Enquanto vigiava o forno, o ti Simão
entretinha-se a fazer pequenas canastras em cana, que iria depois procurar
vender juntamente com o carvão, porta a porta, em Castro Marim, Vila Real ou
Monte Gordo. Os quase cinquenta quilómetros que o separavam destes locais de
venda, eram feitos a andar, atrás dos dois burros carregados com as sacas de
carvão e as canastras de cana. Á volta, depois das vendas, já podia vir acavalo
nos burros e fazer a viagem de forma bem menos cansativa.
Alguns anos antes, o
ti Simão tinha ido a fazer as temporadas da aceifa para o Alentejo, mas agora,
desde que começara a fazer também a sua própria sementeira, ficava-se por ali.
Fazia a temporada à do lavrador Teixeira, enquanto a mulher ia fazendo a sua
própria ceifa. Á noitinha, depois de deixar o trabalho à do lavrador, ia atar os
molhos que a ti Domingas tinha ceifado durante o dia. Por vezes, principalmente
quando havia lua, pegava na foice e ceifava ainda durante algumas horas, para
dar um adianto ao trabalho da mulher que, embora
não ganhasse a bandeira, também raramente ficava com a argola.
Depois de deixar de fazer as aceifas no
Alentejo tinha ainda ido um ano fazer uma temporada a Espanha, mas jurou para
nunca mais. Não por causa do trabalho, mas porque as coisas por além andavam
demasiado quentes. Um dia, em Gibraleón, viu dois homens serem mortos pelos
guardas, como se fossem dois coelhos. Era opinião geral que as coisas em
Espanha ainda iam azedar a sério.
Desta maneira, com o pouco que ia colhendo da
terra e alguns tostões que ganhava a trabalhar
para fora, tinha ido dando para atamancar as coisas. O porquinho que engordava e metia na
salgadeira, dava-lhes para o ano se condutassem
com ele. Uns ovinhos que por vezes a ti Domingas trocava por sardinhas quando
tinha uma quantidade maior; o leite da cabrinha, tudo ajudava a compor as
coisas. A ti Domingas também era mulher de luta. Todos os anos ia fazer a
temporada da monda ao Alentejo, o que lhes dava também a possibilidade de ganharem
mais um dinheirito extra. Um ano, à volta, depois de terminada a temporada da
monda, a ti Domingas tinha ficado uma semana a trabalhar na Mina de S. Domingos
com mais duas camaradas. Apanhavam seixos brancos para umas alcofas de empreita
e transportavam-nos para a fabrica de enxofre. Mas o trabalho, além de má de
roer, era muito mal pago e depressa se barimbaram
no ofício. Nos últimos anos, com uma achega daqui, outra dali, embora malamente, as coisas tinham-se ido
equilibrando. Tinham, até esse ano… porque de repente tudo se tinha complicado.
***
Se no ano anterior
as colheitas haviam sido fracas em virtude de terem sido afetadas por uma seca
já significativa, nesse ano fora a seca total e as coisas tinham descambado por completo. Por Natal não
havia ainda chovido uma pinga de água. Nos últimos dias do ano o tempo mudou, e
durante dois ou três dias ainda amanhecera nuvrinando,
mas escampava pouco depois e não
passou disso. Nem chegou a ser chuva
daquela que molha parvos e enxuga velhacos, como a ti Domingas gostava de
chamar-lhe. Nem um simples esgarrão
de água que tivesse feito correr os canais dos telhados. Fora no entanto o
suficiente para pôr alguma humidade na terra, que permitiu ás searas começarem
a despontar. Mas foi sol de pouca dura e depressa o tempo levantou. De dia, um calor despropositado para a época; á
noite, geadas como o ti Simão não tinha memória de ter visto. As poucas searas
que vinham despontando, foram
totalmente queimadas pela geada. A seca continuou, e pela Páscoa a situação era
idêntica: nem pinga de água! As searas pareciam alqueives. Para todo o lado
para onde se olhasse, nem um bico de
erva verde.
Estava tudo
perdido. Nem os santos quiseram ajudar! No Monte bem se
tinha feito por isso, mas…nada! A primeira vez que as mulheres se juntaram para
rezar o terço, tinha sido ainda antes de Natal. Primeiro foram sozinhas,
algumas noites seguidas, mas não resultou. A ti Doniza dizia que era porque os
homens não queriam saber... não faziam caso, não tinham
ido com elas e ainda por cima faziam
pouco. Para os santos ajudarem, tinha que se acreditar, tinha que haver fé!
Só isso explicava que, depois de rezarem o terço nove noites a fio, o tempo teimasse em não mostrar bico de nuvem.
Na segunda vez que
rezaram o terço, já perto do Entrudo, o grupo de mulheres já contou com a
presença de alguns homens. Juntavam-se todos depois da ceia no largo do Monte,
e o grupo encabeçado pelo ti Soares que levava a cruz, logo seguido pela ti Doniza
e mais duas ou três mulheres especialistas na reza, punha-se a caminho. Saiam
do Monte e afastavam-se um ou dois quilómetros pelos caminhos das redondezas,
com as mulheres da frente a desfiarem as ladainhas da reza, que em seguida era
repetida pelo resto do grupo. Mas nada tinha resultado. Se o tempo seco
estava, seco ficou. Na opinião de algumas mulheres, a cruz deveria ter sido de
oliveira mansa. O ti Soares tinha improvisado uma cruz com duas varas jambuzo e, na opinião delas, o facto de
a cruz ser de oliveira brava, pode ter tido influência na falta de resultados.
A ti Doniza continuou na dela: apontava o
dedo a alguns homens que foram no grupo, e dizia que mais valia que não tivessem posto lá os pés! Na sua
opinião, muitos deles tinham ido apenas para
fazer vista grossa. Ela bem os tinha ouvido lá atrás na galhofa, quando deviam era estar rezando o terço.
Os homens no
entanto eram na sua quase totalidade adeptos da teoria do ti Sequeira. Qual
cruzes, qual rezas nem meias rezas!
Não valia a pena andarem engonhando à
procura de explicações, quando estava tudo mais que explicado. Quando teve
conhecimento que estava a formar-se um grupo para ir rezar o terço, o ti
Sequeira tinha sido bem explícito: era tempo perdido! As canículas tinham sido claras como a água. Nesse ano não ia chover
antes do fim de outubro. Vá lá… com um pouco de sorte podia ser que o tempo deitasse uma pinga de água lá para a feira da Praia, mas nunca
antes disso!
A verdade é que
não chovera mesmo e as coisas estavam pelas horas da morte. Nesse ano não houve
searas para mondar. Da herdade do Alentejo, para onde a ti Domingas costumava
ir fazer a temporada da monda, um portador
trouxera recado a dizer que nesse
ano não tinham trabalho para o rancho de mondadeiras de que a ti Domingas
habitualmente fazia parte.
A ajuda do carvão também não estava a resultar. As
dificuldades não tinham surgido só para o ti Simão. Um pouco por todo o lado os
homens, sem nada para fazer na agricultura, jogaram-se
quase todos ao fabrico do carvão, para procurar ganhar uns patacos. A primeira consequência foi uma escassez imediata de
lenha. Quem a tinha não autorizava que outros a usassem, e quem não a tinha,
como era o caso do ti Simão, via-se obrigado a procurar e arrancar arbustos em
locais pouco acessíveis e quase sempre distantes. Nos barrancos, nas ribeiras e
rochas à volta, não havia loendro, saíço ou tamujo que estivessem a salvo. Mas
se por um lado se tornara difícil arranjar lenha para fazer o carvão, por outro
a sua venda não se tornara menos difícil. O mercado ficara saturado de repente.
O ti Simão, que antes saía um dia de madrugada para Vila Real ou Monte Gordo e
estava de regresso no outro dia à noitinha com o carvão todo vendido, na última
vez precisara de quatro dias para vender o carvão, e mesmo assim teve que o
deixar quase dado. Agora era isto!
Se já não tinha
havido monda nesse ano, muito menos houve aceifa.
O lavrador Teixeira fez a sua só com o pessoal da casa, sem precisar de
contratar mais ninguém. Depois do carrego,
juntou na eira uma meda três vezes
mais pequena do que as que normalmente fazia só com os arraçoamentos. Em anos normais, além do calcadoiro que fazia com a cobrança
das rações a quem tinha emprestado terras, juntava mais meia dúzia de calcadoiros da sua própria colheita, que
lhe rendiam moios e moios de semente.
A seara do ti
Simão, nesse ano, tinha vindo toda num molhinho, debaixo do braço da ti
Domingas. Parecia mentira… meses de trabalho e nem dava para encher o papo uma
vez ás galinhas! E agora? Como é que iam aguentar até ao ano seguinte sem farinha para cozer uma única
amassadura? A colheita do ano anterior esgotara-se havia muito, porque pouco
sobrara depois de pôr de lado alguns alqueires de trigo e aveia para a
sementeira que infelizmente resultara na colheita que agora se via. O ti Simão
tinha até pedido emprestados ao lavrador Teixeira três alqueires de cevada branca para semear e essa então
não dera uma única espiga. Nesse ano teria que voltar a empenhar-se outra vez com o lavrador, e não seria só com a cevada
branca. Iria precisar de pedir ao lavrador toda a semente emprestada. Dez ou
doze alqueires de trigo, sete ou oito de aveia, três ou quatro de cevada, três
ou quatro de tremoços e pelo menos meio alqueire de centeio. A única coisa que
não seria necessário pedir, era a semente de linho. Tinha ainda dois litros de linhaça que a ti Domingas guardara para
fazer algum emprasto ou outra mezinha, com que pudesse acudir a alguma maleita inesperada. Era semente velha e não a mais adequada para
semear, mas dava para desenrascar. Se tudo corresse bem, aquelas quantidades de
semente deveriam chegar. Se o triguinho desse pelo menos cinco sementes tinha um moio de colheita, o que quase lhe
garantia farinha para o ano, além de palha para as bestas. A aveia e cevada
garantia-lhe palha e grão para os
animais, os tremoços para ajudar a engordar o porco e o centeio destinava-se a
fornecer palha para encher os colchões da cama e fazer atilhos para na altura
da aceifa atar os molhos, quando a seara não tinha tamanho suficiente para
fazer os atilhos com a própria palha. Está bem que tinha que
pagar depois ao lavrador, o que ia logo à partida desfalcar a colheita. Com a aveia, a cevada, o centeio e os tremoços
não havia problema. Dava menos à bicharada e estava resolvido. Nada tinha ele
agora para lhes dar e tinham que se aguentar!. O pior era o raio do trigo!
Pagar a dívida e deixar o suficiente para a sementeira seguinte, limpava-lhe
quase metade da colheita, o que significava que as dificuldades iam continuar
no ano seguinte. No entanto, embora ficasse quase despenado,
para não ficar com fama de mau paguilha
era melhor acertar logo as contas com
o lavrador Teixeira e voltar a pedir novo empréstimo quando precisasse.
Mas
logo se via! Como dizia a ti Chica, enquanto
o pau vai e vem descansam as costas, e não valia pena preocupar-se agora
com isso. Em tempos achara piada quando ouvia a ti Chica, a mulher mais velha
do Monte, fazer certas comparações. Quando queria dizer que uma coisa era muito
grande, a ti Chica usava invariavelmente o mesmo dito:
- “Conho… que é quase do tamanho dum dia sem
pão!” Agora entendia melhor o alcance
dos ditos da velha. Um dia sem pão era um dia de fome, e os dias de fome
eram grandes! Custavam a passar. Custavam a passar; tinham já sido muitos e não
sabia quantos mais teriam que ser ainda. Puta
de vida… sorte dum cabrão! Mas quem havia de dizer que o raio do panito fazia tanta falta? Mas fazia. Sem pão, não havia
refeição! Para comer umas sopas, era preciso pão; para uma açorda, era preciso
pão; para um gaspacho, era preciso pão; para umas migas, era preciso pão… era
preciso pão para tudo! Nem que fosse para comer umas azeitonas; um bocado de
toucinho; de chouriça; de queijo, e por aí fora. As poucas refeições onde se
podia dispensar o pão, também não estavam ao alcance de toda a gente. Eram as
que o ti Simão não podia tirar diretamente da terra - como a massa ou o arroz por
exemplo - mas para as adquirir era preciso dinheiro que também não havia. Uma
vez por outra, ainda vá lá… agora para matar a fome no dia a dia, estava fora de questão.
***
O fim do verão
tinha chegado e com ele a aproximação da época da nova sementeira. As canículas
tinham previsto para o próximo ano uma mudança radical do tempo. Quisesse Deus
que fossem tão certeiras para o bem, como haviam sido para o mal. Renascia uma
nova esperança. Ainda não tinha chegado o fim de setembro e o tempo já estava
mudado.
A primeira
quinzena do mês das canículas não podia ter tido melhor previsão. O ti Sequeira
garantira que o próximo ano iria ser chuvoso e o ti Simão só esperava que ele
estivesse certo, como acontecera no ano anterior.
Logo no dia um de
agosto, o primeiro dia das canículas, tinha chuvinhado
por duas vezes. Como o primeiro
representa o ano inteiro, as coisas não podiam ter começado melhor. As canículas
voltaram a prever água para os meses de março e abril e novamente para o fim do
ano. O ti Sequeira estava radiante. O próximo ano ia ser um ano de fartura.
Estava particularmente contente com a previsão para o mês de abril, porque como
se dizia, em abril, águas mil. Era a
altura em que as searas estavam a engradecer
e em que a chuva era mais benéfica. O ti Simão começava a estar mais confiante.
Ainda havia muita lã que tingir até
tudo entrar nos eixos, mas as coisas
pareciam bem encaminhadas. As bagas
das travisqueiras engradeciam à carreira e muitas estavam já vermelhas, o que apontava para uma
época de sementeira mais temporoa nesse
ano. Os jarros também estavam nesse ano muito adiantados para a época. O ti Simão
tinha mesmo encontrado uma raboleira
deles já com candeias. Quando partiu
algumas candeias, ficou mais contente que uma pega sem rabo: nenhuma tinha menos de
sete ou oito sementes. Segundo os antigos,
o número de sementes das candeias dos jarros coincidia quase infalivelmente com
o número de sementes que as searas iam dar na colheita desse ano. Permitisse
Deus que assim fosse, porque os últimos tempos tinham sido duros de roer, e já era altura de as coisas começarem a encarrilar. Já havia passado muita fome
com a mulher para minimizarem a dos filhos, e tinham
passado momentos maus de tragar.
Muito maus mesmo!
Até para quem tinha dinheiro as coisas se
tinham complicado. Depois da revolta militar que três ou quatro anos antes
tinha acabado com a rebaldaria, como
o ti Simão tinha ouvido o lavrador Teixeira apregoar, os novos homens do
governo estavam fazendo um Estado Novo. Mas a verdade é que a muitas das coisas
novas, havia bastante gente que não estava a achar muita graça. De repente, ter
dinheiro deixou de ser sinónimo de se comprar o que muito bem apetecia, porque
a maioria dos bens de consumo passaram a ser racionados. Já não se comprava a
quantidade de coisas que se queria, mas sim aquela que era autorizada. Para
adquirir o que lhes estava destinado, as pessoas tinham que apresentar na
altura da compra as respetivas senhas. Sem elas nada feito.
As senhas eram
distribuídas em Alcoutim, na Câmara Municipal, onde as pessoas formavam enormes
bichas para as receberem. Por vezes era necessário esperar umas boas horas na
bicha, até chegar a sua vez. Dois meses antes, o ti Simão tinha-se descuidado a ir um pouco mais tarde e quando chegou, ás
oito da manhã, já havia uma bicha que o fez esperar cinco horas até chegar a
sua vez. Mas as surpresas não ficaram por aí. A senha para dez quilos de
farinha tinha que ser aviada em Giões, porque as senhas para os pontos de venda
mais perto, tinham-se já esgotado. Decidiu ir logo de caminho buscar a farinha. Para a mulher não ficar em fezes, mandou-lhe recado pelo
ti Soares a dizer que ia logo a Giões e que ia chegar bem tarde.
Montou-se
outra vez acavalo no burro e abalou a
caminho de Giões. Apanhou o caminho direito à Corte Tabelião, passou por Santa
Marta e pelo Coito; cortou direito ao Tesouro, passou pelos Farelos e chegou a
Giões já perto das seis da tarde. Aviou os dez quilos de farinha que meteu nos
dois sacos de linho, tão brancos como o precioso produto que guardavam, atou-os
em alforge e pô-los em cima do burro. Pelo menos dava para continuar a ir
acavalo. Tomou agora o caminho do Viçoso, passou pelas Velhas, Alcaria Cova,
Silveira, e Fonte de Zambujo. Cortou ao lado da Casa dos Martinses direito à
Gafeirosa e, já muito perto da meia-noite, chegou à Palmeira de onde tinha
saído às cinco da manhã.
Tinham passado quase vinte horas desde que saíra de
casa até chegar novamente com os dez quilinhos de farinha. Por todos os Montes
por onde passara, e tinham sido muitos, sempre a mesma desolação. Numa altura
em que as debulhas deviam estar no forte,
as eiras desertas mostravam que as colheitas tinham sido iguais um pouco por
todo o lado. De medas ou calcadoiros,
nem rasto! Aqui e ali vira uma ou outra eira com pequenos vestígios de palha,
mas a maior parte delas nem tinham sido embonicadas
nesse ano. Os solos continuava tapados com o palhiço de tremoços, com que haviam sido protegidos no ano anterior,
no final da época das debulhas.
Pela mente do Ti Simão iam desfilando recordações relacionadas com muitas das tarefas que não realizara nesse ano, como por exemplo o embonicar das eiras, por falta de cereais para a debulha. Embonicar a eira
era uma coisa chata mas, por estranho que pareça, era coisa que o ti Simão
gostava de fazer. Se calhar não era pelo trabalho em si, mas pelo que o mesmo
representava, uma vez que marcava o início da debulha e a aproximação da altura
em que se "enchia" o celeiro e reinava alguma abundância. Recordava os dias
em que, de manhã bem cedinho, ajudava algum vizinho ou recebia ajuda para
preparar a sua própria eira. Era um trabalho em que normalmente havia
entreajuda e que podia ser feito de duas maneiras: com as bestas, ou com gado de pata
miúda. No caso do ti Simão, assim como da maioria da gente do monte, o solo
da eira era feito com as bestas, porque ovelhas e cabras em número suficiente
para fazer aquele trabalho, só o lavrador é que as tinha. Assim, além dos dois
animais que possuía, era necessário reunir para o efeito mais cinco ou seis, que
eram pedidos emprestados aos vizinhos, que por sua vez davam também uma
ajudinha.
No dia anterior, tudo tinha sido atempadamente preparado. Para junto
da eira, carregavam-se duas ou três gorpelhas
de barro joeirado, que iria ser
usado para reforçar o solo e tapar algum buraco que tivesse surgido, de forma a
restaurar completamente o solo da eira. Haviam igualmente trazido quatro ou
cinco caminhos de água, carregada com
o burro numas zangarilhas, em dois
cântaros de zinco ou de barro, e posteriormente despejada em dornas e alguidares de
barro junto à eira. Depois de molhar bem o chão e espalhar uma certa quantidade
de barro, punha-se-lhe as bestas em cima. Andavam a rodar interruptamente em cima
da eira, por vezes durante horas, dirigidas pelos homens, que de vez em quando
se revezavam. Ao mesmo tempo, iam-lhe
adicionando pequenas quantidades de barro em pó, que seguidamente ogavam com água, Quando o solo da eira
adquiria a consistência desejada, retiravam os animais, deixavam secá-lo e
estava pronto a ser embonicado, para
proteção final e evitar que rachasse. Para o efeito, tinham já sido apanhadas uma
boa quantidade de bostas de vaca, que
depois de bem diluídas em água, serviam para besuntar todo o solo da eira, usando para o efeito uma vassoura de rama de xolgaço verde. Terminado todos os
procedimentos, a eira estava pronta para a debulha.
***
Havia quase três
semanas que em casa do ti Simão se tinha comido a última côdea de pão.
Dinheiro, nem um tostão para mandar
cantar um cego. Dois dias antes, à tardinha, o ti Simão tinha dito à
mulher:
- Esta noite vou
dormir a Alcoutim, à porta da Câmara, para amanhã apanhar senha para farinha. - A
ti Domingas tinha retorquido com ironia:
- E com que dinheiro é que queres comprar a
farinha… com os canos do cu? - Mas o ti
Simão não se desmanchou:
– Logo vês… um panito tenho eu que arranjar! - Não levou o burro, porque sabia que
a carga que se propunha trazer não ia pesar-lhe. Pôs uma talega vazia a tiracolo e
ainda lusco-fusco, abalou a caminho de Alcoutim. Chegou
três horas depois e dirigiu-se para a porta da Câmara. Não foi sequer dos
primeiros a chegar. Sentados no chão e encostados às paredes à volta, havia já
mais de vinte pessoas que como ele haviam decidido passar a noite junto à
Câmara, para garantir que ficavam na frente da bicha para a atribuição das
senhas. Havia gente um pouco de todo o lado. Muitos da freguesia de Alcoutim,
mas também de outras partes do concelho. Alguns tinham saído de casa nesse dia
à hora do almoço. O ti Simão ia metendo conversa com um e com outro,
principalmente com aqueles que conhecia mais mal. O objetivo era apalpar o terreno, para pôr em prática a
ideia que tinha em mente. A maioria era gente cuja sorte não era muito
diferente da sua, e que como ele estavam também mais tesos que um carapau. Mas havia alguns que, pelo que se
apercebeu, tinham dinheiro suficiente para as compras. Era o caso de um homem
que se queixava de que, mesmo tendo dinheiro, as senhas a que tinha direito
eram sempre poucas para comprar a farinha que precisava. Quando o ouviu
queixar-se, o ti Simão saiu-se com esta:
- Bom… parece
que se juntou a fome à vontade de comer! Você não pode comprar mais farinha
porque, embora tenha dinheiro para isso, faltam-lhe senhas, e eu vou receber
senhas que não posso usar, porque não tenho dinheiro. Então, se você quiser, fazemos um trato: eu dou-lhe a minha
senha da farinha e você dá-me um pão cozido em troca.
– Negócio fechado
- retorquiu o homem, estendendo a mão ao ti Simão que a apertou com genica.
– Quando
recebermos as senhas amanhã, vai comigo até ao meu Monte e trás o panito de
volta, que a minha patroa cozeu hoje
a amassadura. - O ti Simão ainda franziu a testa quando soube que o homem
morava nas Soudes, mas não deu parte de
fraco. Estava feito… palavra de homem
não volta atrás! Ainda era um esticão dum cabrão da Palmeira até ás Soudes,
seguramente mais de duas horas para cada lado, mas tempo era coisa que não lhe
faltava. Por volta das duas da tarde, depois de ter palmilhado mais de cinquenta quilómetros a butes à conta do pão, estava de regresso a casa. A fome tinha
sido aliviada por uma barrigada e
figos lampos, que apanhou numa corga de
figueiras perto do moinho da Cortelha. Mais
contente que uma pega sem rabo, depois de deixar o pão em casa, tinha ido à procura da mulher para lhe dar a boa nova: conseguira
arranjar um pão em troca da senha!
Como o fulano das Soudes com quem negociara,
lhe tinha dito que a mulher cozera nessa tarde, tinha resolvido ir logo
recolher o pão. Dissera à ti Domingas para não dizer nada aos filhos, porque
lhe queria fazer uma surpresa. Principalmente o pequeno Martinho, havia já alguns
dias que inquiria frequentemente:
- Quando é que temos pão outra vez pai? - Ia
ser hoje. Havia tanto tempo que ninguém comia uma côdea de pão naquela casa,
que lhe apetecia mesmo poder finalmente oferecer uma refeição em condições aos
filhos.
A ti Domingas havia muito que andava a queixar-se que a caroca e a pardês, as duas galinhas mais velhas que tinha, já não punham ovos
em condições. Dizia que de vez em quando punham ovos que mais pareciam de rola,
que nem gema tinham, e que mais dia menos dia cortava-lhes o cachaço.
Lembrando-se disso, o ti Simão sugeriu à mulher que matasse uma delas para
fazer um guisado para esse dia. A outra ficava ainda para acudir a alguma
falta. O ti Simão esfregava as mãos de contente. Ia ser um dia de festa. Porra... que já era tempo de se matar a fome em condições, pelo menos por um dia!
Desde o início do ano que as coisas estavam difíceis no que tocava ao panito. O último pão que a mulher cozera com farinha da sua própria colheita, tinha sido ainda antes do Natal do ano anterior. Daí para a frente, conseguira de longe a longe cozer uma amassadura, quando era possível arranjar algum dinheiro que lhe permitisse comprar uns quilos de farinha através das senhas. E não tinha sido mais de meia dúzia de vezes, nos últimos nove meses.
Desde o início do ano que as coisas estavam difíceis no que tocava ao panito. O último pão que a mulher cozera com farinha da sua própria colheita, tinha sido ainda antes do Natal do ano anterior. Daí para a frente, conseguira de longe a longe cozer uma amassadura, quando era possível arranjar algum dinheiro que lhe permitisse comprar uns quilos de farinha através das senhas. E não tinha sido mais de meia dúzia de vezes, nos últimos nove meses.
Para dizer que não tinham
passado mal, era mentira. A fome tinha-os apoquentado por muitas vezes,
principalmente a ele e à mulher, que sempre que a comida era pouca procuravam
minimizar a fome dos filhos, ficando eles próprios muitas vezes com a barriga dando estralos. Ainda assim a
situação nem de perto tinha sido tão má como a que acontecia em muitas casas do
Monte, onde a fominha era negra dia
sim, dia sim.
Costuma dizer-se que a fome
aguça o engenho e o ti Simão fazia jus ao dito. Dotado de uma boa dose de
astúcia e habilidade, liberto do trabalho do campo que lhe deixara tempo para dar e vender, o ti Simão
empenhara-se a fundo em acarear para comer. Explorava ao pormenor todas as
possibilidades de resgatar da natureza o alimento para matar a fome à família.
Quando no início do ano viu o estado em que as sementeiras ficaram,
apercebera-se de imediato do que aí vinha, e o mau tempo não o apanhou descalço. Ainda antes do Natal instruiu a mulher
para, á medida que as galinhas fossem agarrando
no choco, deitar duas ou três em cima das respetivas linhadas de ovos. Os pintos criavam-se à perna solta e sempre eram uma garantia de alimento; quando fosse
necessário, matariam um para comer. Embora nem tudo tivesse corrido bem com uma da linhadas, porque uma trovoada seca em maio, quando a galinha estava em cima dos ovos fizera gorar mais de metade, e também com as
duas cabras que tinha, já que uma delas maleou
a poucos dias de criar, a outra no entanto pariu
dois chibos que o ti Simão trocou três meses depois por dois bácoros pequenos. Seriam também
engordados à perna solta e
permitiam-lhe fazer mais um varal de chouriças, carne de conserva, presunto, e
ainda banha e toucinho para substituir o azeite nos cozinhados. Quando os chibos tinham pouco
mais de um mês de idade, começou a embarbilhá-los
para os impedir de mamar a toda a hora e garantir que no início e no fim do
dia, quando ordenhava as cabras, retirava uma maior quantidade de leite. Além
da pequena quantidade que todos os dias consumiam, a ti Domingas conseguia
ainda fazer dois queijinhos pequenos diários, que depois punha a secar num caniço de
canas finas, que tinha na cozinha dependurado ao telhado.
Mas onde o ti
Simão era um ás, era na arte da caça e da pesca, que lhe haviam garantido
alimento durante uma grande parte do ano. Havia muito que perdera a conta ao
número de coelhos que apanhara nesse ano, com a rateira que tinha mandado fazer ao
ferreiro da aldeia do Pereiro. Bastava-lhe dar uma volta e examinar com cuidado
veredas, espojeiros e caganiçais,
para escolher com uma precisão quase infalível o local para enterrar o ferro que, no dia seguinte de
manhã, tinha um coelho bem trincado pelo meio ou pelo cachaço.
Só na atura da
criação o ti Simão avagava um bocado.
Não gostava de apanhar coelhas prenhas, ou que tivessem criação na caçapeira. Era bem melhor deixá-los
crescer, que depois tinham tempo de ajustar
contas. Com as perdizes, o tempo da criação era também sagrado. Nunca
passaria pela cabeça ao ti Simão roubar
um ninho de perdiz, ou apanhá-la no ninho, embora fosse a coisa mais simples de fazer. Bastaria um pequeno bocado de fio de sapateiro ou, na
sua ausência, arrancar três sedas do rabo de uma besta, para fazer uma
pequena trela em trança e armá-la com um nó corredio à entrada do ninho, que
pouco depois a perdiz estaria lá enforcada.
Havia várias razões para o ti Simão
não fazer isso. Por um lado, não dava
luta… não tinha ciência. Era apanhar o bicho à falsa-fé. Por outro, se apanhasse a perdiz no ninho, comia apenas
uma; se deixasse deitá-la a monte,
poderia muito bem, com um pouco de sorte, apanhar cinco ou seis perdizes
daquela criação alguns meses mais tarde. Quanto muito tirava meia dúzia de ovos
a um ninho, para a ti Domingas pôr dentro dos folares da Pascoa. Mas este ano
nem isso, porque a falta de farinha não permitira esse luxo. Assim, fazia a
época do perdigão nos finais de abril, princípio de maio e as perdizes só
começava a apanhá-las lá para o fim do verão. A caça ao perdigão era uma das
artes que mais agradava ao ti Simão. Não só pela ciência que tinha e luta que dava, mas também por
ser praticamente inofensiva para a população de perdizes porque, mesmo
apanhando o perdigão, a perdiz sozinha tirava e criava os perdigotos.
A época estendia-se normalmente entre meados de abril e
meados de maio, altura em que as perdizes começavam o choco e estavam deitadas
em cima dos ovos. Era a época de cantar ao perdigão. A arte consistia em imitar
o canto de uma perdiz, usando para o efeito um pequeno chamariz, a que na
região se dava o nome de recâimo. Era
um pequeno instrumento com cerca de dez centímetros de comprimento, feito
artesanalmente de um bocado de madeira de nespereira ou de laranjeira. O bocado
de madeira maciça era trabalhado até ficar afunilado nas duas extremidades e
escavado ao centro para fazer uma caixa de ressonância, para dentro da qual
convergiam dois pequenos tubos feitos de uma pena de grifo, um dos quais era tapado numa das extremidades com um bocado de cera.
O recaimo do ti
Simão tinha sido feito por ele próprio, e usava-o com uma perícia tal que muito
raramente o perdigão desconfiava do logro. Escolhia o local num pontalinho e fazia a taimeira com mato e arbustos verdes para
se esconder. Á volta fazia pequenos valados também com arbustos, deixando
nalguns locais um pequeno espaço para o perdigão passar. Era nesse preciso
local que colocava os aboízes, um
tipo de armadilhas totalmente artesanais, bastando para construí-las cerca de
cinquenta ou sessenta centímetros de fio
de sapateiro para cada uma. O resto era
feito com pauzinhos com os quais se montava um mecanismo simples, sobre o qual
era colocado o fio com um laço de correr. Quando o perdigão pisava os
pauzinhos, o mecanismo era acionado por uma vara de esteva que tinha sido
dobrada para fazer mola, e à qual estava atada a outra ponta do fio.. Quando o
mecanismo era acionado, a vara soltava-se e com o impulso fechava o laço que
prendia o perdigão pelas patas. O ti Simão saía então da taimeira, recolhia o perdigão, e voltava a montar o aboíz.
Em dias de sorte, quando os bichos
estavam mesmo destemidos, chegava a
apanhar três ou quatro. Muitas vezes, quando estavam mais foitos, aproximavam-se dois ou três ao mesmo tempo e nessa altura
era quase certo que se enfelpavam a
guerrear. Embora fosse engraçado vê-los guerrear, o ti Simão não gostava que
eles viessem em grupo, porque quando caísse
o primeiro, os outros cavavam-nas e
por vezes ficavam de tal forma trilhados que daí para o futuro desconfiavam
facilmente da marosca e passavam a ser
bastante mais cautelosos. Por vezes ficavam tão escarmentados, que tornava-se mesmo difícil conseguir que voltassem
a aproximar-se da taimeira. Ficavam
cantando a algumas dezenas de metros, empoleirados numa pedra, e para o lado da
taimeira… tá queta Bia!
A época melhor
para apanhar as perdizes, era no fim do verão, quando as figueiras dessem a segunda camada de figos. Nessa altura,
as perdizes da criação já não faziam praticamente diferença das velhas. Só os
mais entendidos, como o ti Simão, lhe sabiam ver a diferença pela cor de
algumas penas. O ti Simão tinha meia dúzia de esparrelões, que ele próprio tinha
feito para apanhar perdizes. Por vezes armava-lhe também loisas, que dava
igualmente para apanhá-las e em ambos os casos os figos serviam de isco. Após
recolher todos os figos que eventualmente estivessem caídos no chão, debaixo
das figueiras, montava as armadilhas. Embora os esparrelões fossem mais
práticos e fiáveis, muitas vezes usava também as loisas. Bastavam duas pedras e
quatro pauzinhos com determinadas caraterísticas. Uma pedra era a chamada loisa
e a outra o banquete. A armadilha montava-se com um bocadinho de cana a que era
dado o nome de canilha, e três pauzinhos para armar o mecanismo (o pingalhete e
as armas). Quando a perdiz fosse apanhar o figo que servia de isco era obrigada
a acionar o mecanismo que, deixando subitamente de suportar a pedra da loisa,
fazia com que a mesma caísse em cima da perdiz, que ficava debaixo da mesma.
Estas mesmas artes, em dimensões mais reduzidas, eram também usadas para
apanhar todo o tipo de passarada. Em tempos de menor necessidade, era atividade
quase exclusiva dos gaiatos e jovens mas, agora, com a fominha a apertar, era também prática dos mais velhos e o ti Simão
não era exceção.
A pesca era outra
safa para apaziguar a fome, mas havia já muitos meses que o ti Simão tinha que
fazer mais de vinte quilómetros para tentar apanhar peixe para a refeição. Nos
sítios onde normalmente os apanhava, que eram a ribeira e os barrancos, nesse
ano não fora possível porque não chovera e, tanto uma como outros, estavam mais secos que um pau. Quando a ribeira
tinha água à farta os barrancos corriam, era quase sempre fácil apanhar peixe
para comer. Ainda antes do início da primavera, as pardelhas, as bogas, as
paxonas, e outros peixes pequenos a que o ti Simão já ouvira chamar saramugos,
começavam a entrar para os barrancos. Nessa época o ti Simão colocava em sítios
estratégicos, normalmente nos correntes, alguns côvados de cana que
atempadamente construíra. Não necessitavam de ser iscados. Os correntes eram
estreitos e chatos, o que permitia colocar os côvados onde a veia de água fosse
mais forte e tapar o resto com algumas fiadas de pedras, levando a que a
possibilidade de os peixes passarem ao lado do côvado fossem muito reduzidas ou praticamente nulas.
Na ribeira também era possível utilizar esta estratégia mas, devido à sua
maior dimensão, só lá mais para o fim da primavera, quando o caudal fosse mais
reduzido. Antes disso, na ribeira, só com um tresmalho ou uma tarrafa, e isso eram peças de luxo que o
ti Simão não tinha. Por vezes também armava côvados nos pegos mais fundos da
ribeira, mas nesse caso tinham que ser iscados. Para esta modalidade o ti Simão
tinha dois côvados que fizera em verga porque, para pescar ao fundo, os achava
mais eficientes do que os de cana. Iscava-os com tremoços doces e algum milho
se o tinha. Prendia-os com uma corda de junça e atava-lhe uma pedra para fazer
peso e os manter no fundo do pego. Mas o peixe que apanhava desta forma era
sempre pouco. No rio resultava muito melhor.
Uma vez chegado o
verão, quando os pegos da ribeira começavam a baixar, era altura de pôr em
prática outras estratégias. Primeiro, quando os pegos ainda tivessem bastante
água, o ti Simão começava por apanhar os peixes à lapa. Nestes casos procurava
sempre os pegos onde houvesse mais pedras atanxadiças, desde que tivesse
esconderijos onde os peixes se acolhiam. Em pegos onde não existiam
esconderijos naturais, o ti Simão chegava a colocar pedras e fazer lapas
artificiais onde os peixes se pudessem esconder, para depois, sorrateiramente,
meter lá a mão e trincá-los.
No fim do verão, quando o pego já tivesse pouca
água, antes que secasse ou que as garças começassem a sua própria pescaria, era
a altura de fazer a razia total aos peixes que tinham tido a sorte de iludir os
pescadores até então. O ti Simão era raro usar esta técnica, só recorrendo a
ela em casos excecionais. Tratava-se de embarbascar o pego. Era uma conjugação
simples de determinadas plantas que, deitadas na água em certa quantidade,
tinham a propriedade de deixarem os peixes tão zonzos, que se apanhavam à mão.
A mistura era feita com uma planta chamada brabasco e crescia em muitos locais
em abundância significativa. O ti Simão apanhava-a já depois de seca, pisava-a
com uma pedra até ficar bem moída, misturando-a depois com munha de centeio e
um pouco de água. Fazia pequenas bolas com a mistura, que depois atirava para a
água. Algumas horas depois, todos os peixes do pego andavam à tona de água, tão
bêbados, que era só apanhá-los e metê-los no cesto. Não era das coisas que mais
agradava ao ti Simão, porque ficava com a sensação incómoda de estar a agir à
falsa-fé; de ser uma luta desigual e da qual não havia qualquer possibilidade
de salvação para os desgraçados dos peixes. Mas nesse ano nada disso tinha
acontecido. Mesmo nos pegos de nascente que ainda tinham alguma água, os peixes
tinham sido literalmente dizimados no ano anterior, e nesse ano a ribeira e
barrancos não voltaram a correr. A ausência de chuva fizera com que não
houvesse pisca de água. Até mesmo os
moirais tinham que percorrer grandes distâncias para encontrar na ribeira pegos
com alguma água para os animais beberem.
Ao ti Simão
restava a hipótese do rio para tentar apanhar algum peixe para comer e que era onde
se havia entretido nesse ano, praticamente desde o inicio do verão, com meia dúzia
de côvados de verga. Saía de casa logo de manhã. Levava o burro e as duas
cabras e passava por lá o dia. Atava o burro e as cabras para pastarem, num
local onde pudessem chegar às sombras, e
ia aos canaviais colher carriços para lhes reforçar a alimentação. Fazia uns
cestinhos e umas canastras; recolhia verga nos freixos junto ao rio para fazer
novos côvados; dormia uma folga, e à tardinha retirava os côvados da água para
recolher o peixe que eventualmente tivessem e voltava a lança-los de novo à água. Antes de regressar ao Monte,
por vezes já a caminho do mesmo, fazia uma paragem para procurar um sítio para
armar a rateirinha.
Nesse verão,
depois de muito magicar, tinha descoberto uma forma de apanhar peixe mais
facilmente e em maior quantidade do que nos côvados. Era uma experiência que
não conseguia pôr em prática sozinho e um dia, enquanto estava à folga junto ao
poço do vinagre com o Dias do Marmeleiro que aparecera lá nesse dia, expôs-lhe a ideia e convidou-o para o
ajudar a pô-la em prática. A questão é que era um sistema que dava muito nas
vistas e era impossível fazê-lo pela calada. Depois de discutir o assunto,
decidiram dar conhecimento aos guardas do posto da Grandaça, que ficava bem
perto do local escolhido. Quando lhes falaram nisso, e depois de explicar que
não iriam usar qualquer rede e que seria tudo feito com ideias, o comandante do
posto deu-lhes autorização para a pescaria. Pareceu-lhes que o cabo Rocha nem
por sonhos acreditava que fossem apanhar qualquer peixe, porque lhes disse com
ar de gozo:
- E não se
esqueçam de nos trazer depois um cestinho de peixe! - Nos dias
seguintes entreteram-se a fazer umas dezenas de metros de baraçinha de junça, com
a qual teceram depois dois caniços de cana com cerca de dois metros de altura e
comprimento suficiente para tapar o Esteiro do Vinagre de barreira a barreira. A ideia era tapar o esteiro com os caniços,
quando a maré estivesse totalmente cheia e houvesse bastante peixe a circular
no barranco, impedindo-os de voltarem ao rio. Depois seria só esperar que a
maré vazasse e, quando estivesse escorrida,
apanhar à mão os peixes que tinham ficado em seco. O grande problema seria
colocar os caniços na água. Depois de discutir algumas possibilidades que foram
sendo postas de parte por chegarem à conclusão de que dificilmente resultariam,
chegaram a consenso sobre uma forma que lhes pareceu a mais correta. Procuraram
paus um pouco mais altos que os caniços, fizeram um outro caniço com cerca de
um metro de altura e, quando a maré estava vazia, colocaram-no transversalmente
no esteiro enterrando-o na lama sensivelmente até meio. O caniço foi fixado com
os paus que foram atanchados aos
pares, um de cada lado do caniço, com intervalos de cerca de cerca de dois
metros. Os peixes não entrariam quando a maré estivesse quase vazia, mas
faziam-no durante mais de meia maré. A estrutura iria manter-se sem alteração
três ou quatro dias, antes de tentarem a pescaria, para que os peixes se
habituassem à sua presença. No dia escolhido para tapar o esteiro dormiram no
local. Perto do sol posto, logo que a maré ficou escorrida, começaram a preparar a armadilha. Os dois caniços foram
colocados entre os paus a uma altura suficiente para ficarem fora de água
quando a maré estivesse cheia. Seguidamente foram seguros em três pontos de
apoio; um ao meio do esteiro e um em cada extremidade. Foram atadas algumas
pedras na base do caniço para o obrigar a descer mais rápido quando fossem
soltos os pontos de apoio e o engenho ficou pronto a ser acionado. Agora seria
só esperar que a maré estivesse cheia para, um pouco antes da mesma virar, soltarem os pontos de apoio e a
estrutura funcionar como uma guilhotina.
Por volta das
duas da manhã, pouco faltava para a maré estar apremada. A lua tinha sido cheia no dia anterior e a maré era viva,
tendo subido bastante e praticamente chegado acima das barreiras. O Dias, que
por conhecer melhor o ciclo das marés tinha ficado responsável por indicar a
altura certa para descer o caniço, disse ao Ti Simão que estava na hora de o
fazer, antes que a maré começasse a dar sinal de virar. Nessa altura, era previsível que muitos dos peixes que
entretanto tinham subido para o esteiro, começassem a regressar ao rio,
tornando-se por isso urgente cortar-lhes a retirada, antes que se pusessem na alheta. Posicionando-se
um de cada lado do esteiro, soltaram os pontos de apoio e deixaram os caniços
descerem até cruzarem-se com os que estavam no
fundo. Uma vez arreados, os
caniços ficaram apenas com meio metro fora de água, medida manifestamente
reduzida, como pouco depois verificariam. Logo que a maré virou e começou a
descer, alguns peixes começaram a regressar ao rio, como tinham previsto. Só
não tinham contado foi com o facto de o caniço não os deter, porque armavam um salto e catrapus... ficavam no outro lado! Tinham que remediar o assunto na
próxima vez, acrescentando mais um bocado a altura dos caniços. Mas à medida
que a maré descia, ia diminuindo a
quantidade de peixes que conseguiam transpor o caniço, sendo que quando o mesmo
tinha cerca de um metro acima do nível da água, poucos eram os que conseguiam a
proeza. Analisando o comportamento dos peixes enquanto a maré descia, chegaram
à conclusão que se os caniços tivessem metro e meio fora de água, seriam
praticamente intransponíveis, exceto por um ou outro saltor mais nervoso. Por outro lado, também quase que só os muges
eram artistas suficiente para saltar por cima dos caniços;
todos os outros ou nem sequer tentavam, ou quando o faziam era tarde de mais
porque a maré já descera demasiado e a barreira era agora intransponível.
Ao romper do dia,
verificaram que a estrutura tinha funcionado na perfeição e que estava bem
segura. Á media que a maré ia vazando começaram a ver a movimentação dos
peixes, verificando com alegria que havia uma enorme quantidade deles que
tinham ficado presos no esteiro. Por volta das sete da manhã, com a maré
praticamente escorrida, entraram no
esteiro e começaram a apanhar os peixes que saltavam na lama. Verificaram que a
maioria dos muges tinham-se maquinado,
pelo menos os maiores, e que só os mais pequenos não tinham saltado por cima do
caniço. Em compensação havia uma enorme quantidade de barbos e de carpas; uma
quantidade razoável de robalos e sáveis, e ainda bastante peixe miúdo que não
conseguiam identificar as espécies. Começaram por recolher os peixes maiores,
com destaque para duas carpas enormes que rondariam os quatro a cinco quilos
cada uma e que se apressaram a agachar,
para o cabo Rocha nem sequer lhe dar o
cheiro. Na opinião do Dias, era garantido que se o gajo as visse se cobiçava nelas. Assim era melhor nem lhe
dar a hipótese de ficar luzindo o olho!
– Levas barbos e carpas e já gozas! – tinha acrescentado o Dias. Depois da
recolha completa, tinham enchido duas canastras que despejaram num péguinho do barranco, perto do poço do
vinagre, onde lavaram o peixe para lhe retirar a lama do esteiro. Seriam perto
de duas arrobas de peixe. Para partir a
cara ao cabo Rocha encheram um cesto que seguidamente foram levar ao posto,
e o restante dividiram-no entre os dois. Cada um se encarregaria depois de
gerir a sua parte, sendo que muitos dos vizinhos de ambos seriam seguramente convidados.
***
O ti Simão
continuava sentado no pial, embora a
ti Domingas já o tivesse chamado para casa umas
poucas de vezes, e de lhe ter dito que “parecia que estava deslembrado”. Na rua as pessoas tinham
dispersado havia muito, cada uma regressando aos seus afazeres. A alguns
gaiatos que haviam ficado na brincadeira tinham-se entretanto juntado outros, formando
nesse momento um grupo relativamente grande. Um dos mais novitos, que brincavam
a poucos metros de distância num pequeno grupo, disse de repente para o que
estava a seu lado:
- Não viste o catalão? Tinha umas barbas que lhe davam
aqui… - exclamou o gaiato enquanto, com a mão em cutelo, tocava a meio da
barriga. De imediato uma rapariguita com cerca de quatro anos, que fazia
bolinhos de terra sentada no chão mesmo ao lado do ti Simão, pôs-se a apregoar
com voz esganiçada:
- Eu também o vi!
Eu também o vi!...
- O que é que tu
viste Maria? – questionou-a o ti Simão, tomado por súbito interesse pela
conversa dos gaiatos.
- Vi o velho da saca ti Simão… era um velho da saca!
O ti Simão
levantou-se como que impelido por uma mola, enquanto bombardeava a gaiata com
perguntas de repelão:
- Quando é que tu
o vistes? Onde é que ele tava? Para onde é que ele foi?
- Vi-o inda’gora… passou lá á minha porta. Eu
fugi para casa e disse á minha mãe que ia ali o velho da saca, mas ela não
acreditou… não sei para onde é que ele
foi! – exclamou a petiza deveras admirada por finalmente alguém adulto se
mostrar interessado no seu relato.
- Eu vi para onde
ele foi ti Simão – anunciou o gaiato que iniciara a conversa do catalão.
- Quando ele
passou lá á nossa porta eu fugi também com a minha mana, mas depois fui-me a assomar e vi-o ir além ao pé do Poço do
Lameiro… estraposeu direito à Portela
dos Pegos!
Atravessando o
terreiro a passo largo, o ti Simão dirigiu-se resoluto para a direção indicada
como tendo sido a seguida pelo desconhecido, com a clara intenção de meter-se a rabo dele, enquanto ia
dizendo a meia-voz:
- Foi aquele sacana! Está mais que visto… foi aquele filho d’puta que me limpou o pão. Mas espera lá
que eu já te amanho!
Depois do pai
abalar, a Dolores, que se mantivera à distância mas que não perdera palavra do
que fora dito, deixou o grupo onde estava de forma despercebida, e pouco depois seguiu no encalço do pai. Quando o
alcançou este ainda a mandou voltar para trás, mas vendo a determinação desta
em acompanhá-lo, acabou por desistir. Antes de chegar ao sitio indicado pelos
gaiatos, já o ti Simão tinha descoberto no caminho pegadas de pata descalça, classificando-as, sem
grandes dúvidas, como sendo o rasto do maltês. Era seguramente um pobre diabo;
um desses muitos deserdados do mundo que regularmente cruzavam os caminhos da
serra, sem rumo certo, deslocando-se de povoação em povoação à procura de algo
que lhes matasse a fome. Nem sempre o conseguiam, já que a solidariedade
natural das gentes locais, não estando ferida de morte, estava no entanto
bastante debilitada mercê dos tempos negros
e malinos por que todos passavam.
Na mente do ti Simão ia-se consolidando uma versão de como tudo se passara. O gajo tinha vindo pelo caminho do
Barranco da Loba ou pelo da Portela da Ribeira e entrado pelo lado de baixo do
Monte. Pouca gente o vira porque na hora do calor a maioria estavam recolhidos
em casa. Quando passou à sua porta e viu o postigo aberto, meteu a cabeça, viu
o pão em cima da mesa e não pensou duas vezes: deu-lhe a palmada! As meditações do ti Simão foram interrompidas
pela pergunta da Dolores:
- Ó pai… então e
se ele já lingou o pão, o que é que
você lhe faz?
- O que é que eu
lhe faço? Se o comeu… nã faz a
digestão!
A filha riu-se
com uma risa amarela, forçada,
indicador claro do estado de nervosismo em que se encontrava. O instinto
tinha-a posto no encalço do pai. Conhecia-o bem e sabia que se alcançasse o
maltês, as coisas iriam ficar mesmo feias. No Monte todos lhe conheciam o
feitio. Ainda há pouco, quando as pessoas se haviam juntado lá à porta ao
ouvirem o lavarito, a Dolores tinha
ouvido o ti Sequeira comentar:
- O Simão é um mãos abertas... o que tem não é dele; mas não lhe pisem os calos, porque quando lhe chega a mostarda ao nariz, não é flor que se cheire... têm que se pôr bem com ele!
Depois da Portela
dos Pegos, onde se apartavam os
caminhos das Choças e da Nora, o rasto seguia para o caminho da esquerda,
direito ao Cerro da Agulha.
- Foi para o
Balurco – disse o Ti Simão entredentes. Voltou novamente ao silêncio, que só quebraria
um quilómetro mais à frente, quando disse de repente para a filha:
- Vê-lo? Além tá o cabrão!
Tinham chegado ao
Barranco da Volta. Ligeiramente à direita do sítio onde o caminho cruzava o
barranco, havia um pego de nascente
que se mantinha com água o verão inteiro. Por serem bastante escaços, estes locais funcionavam como
pequenos oásis, e eram extremamente concorridos durante todo o verão. Eram
procurados não só pelas pessoas para darem de beber aos animais domésticos
quando trabalhavam nas redondezas, mas principalmente por todo o tipo de aves e
animais selvagens. Tal facto tornava-os por isso locais de excelência para a
montagem dos mais diversos tipos de armadilhas para caçá-los. Para um leigo na
matéria, tudo pareceria comum à volta do local. No entanto, a um observador
treinado, bastava-lhe um olhar mais atento para ficar a saber que não era bem
assim. Além dos sítios das esparrelas,
das pedras dos banquetes e das loisas para a passarada miúda, que os
gaiatos armavam diariamente, podiam igualmente ser localizados os vestígios de
armadilhas colocadas pelos homens, para apanhar caça. Bastava um olhar, para
localizar os sítios dos esparrelões,
a varinha de esteva, os pauzinhos ou as forcas
dos aboízes espetadas no chão, e que tinham sido armados para apanhar
perdizes; as estacas dos arames e laços, as covas das rateiras para coelhos e
lebres, forneciam indicadores claros de que durante a noite e nas primeiras e
últimas horas do dia, o local era um autêntico campo minado. As armadilhas eram
colocadas à tardinha, quando já não era previsível que se deslocassem ao local
animais domésticos para beber e retiradas de manhã, antes de o local voltar a ser
procurado para o mesmo fim.
Sentado no chão,
à sombra dum loendreiro junto ao pego, estava a “presa” do Ti Simão. O garoto
não exagerara quando descrevera a aparência do “catalão”. Cabelo e barba que havia anos não viam tesoura, descalço,
roupa esfarrapada e olhar apático, desfiava uma ladainha incompreensível que
lhe acentuava ainda mais a imagem de pailão.
Junto dele, um varapau de jambuzo, a
saca de serapilheira onde levava sabe-se lá que trogia... e em cima da saca o pão que levara sumiço. O Ti Simão aproximou-se sem dizer palavra, dobrou-se e
apanhou o bordão de jambuzo. Só
depois pôs os olhos no pão. Faltava-lhe um cascotinho
que pela textura se via claramente ter sido partido à mão, indicador de que o
pobre diabo nem uma faquinha usava. Apontando o pão com o bordão, o Ti Simão
perguntou:
- De quem é
aquele pão?
- É meu –
respondeu o maltês começando a levantar-se.
- É teu, ou é
meu? - A pergunta do Ti Simão não esperou resposta, já que coincidiu com o
zunir do bordão em direção ao lombo do
desgraçado maltês. O silêncio que reinara nos arredores até então, apenas
quebrado pelo cantar constante e interrupto de algumas cigarras, camufladas nos
troncos de árvores ou arbustos nas proximidades, foi de súbito quebrado por uma
gritaria infernal, saída de três bocas e por motivos diferentes. Rolas,
cotovias, picanços e outra passarada que estavam pousados na proximidade do
pego, esperando que os intrusos deixassem o local, para irem beber, voaram
assustados e em simultâneo num bater de asas barulhento. As cigarras calaram-se.
O Ti Simão gritava enraivecido:
- Filho d’puta, qu’é limp’t o sebo! Sacana de merda que eu
mato-te! Queres mais pão? Toma lá outro! - O cacete que o Ti Simão segurava com
as duas mãos subia e descia com rapidez, produzindo um som cavo quando atingia
o alvo. O desgraçado maltês rebolava pelo chão numa gritaria medonha:
- Ai ói!.. .ai
ói! ...deixe-me!... ai minha mãe! ai ói!
- A pequena Dolores,
numa gritaria, chorava e puxava o pai, tentando desviá-lo do maltês, já com
a cabeça e cara ensanguentadas.
- Deixe-o,
pai!... Deixe-o!... Não lhe bata mais que você mata-o, pai!
Foi a filha que o
trouxe de volta à realidade. Parou de repente com a agressão, ficou a olhar uns
segundos para o maltês, apanhou o pão e atirou-lhe ainda enraivecido:
- Filho dum cabrão,
que a tua sorte foi a moça... não comias
mais nenhum!
- Vamos embora,
pai...vamos embora! - continuava a pequena Dolores aflita.
Atirou com o
bordão para longe e, seguido de perto pela miúda, pôs-se a caminho de regresso
ao monte. Antes de extraposer de vista,
voltou de novo o olhar para o local do ajuste de contas. O maltês havia-se
levantado, e estava de cócoras ao pé do pego lavando a cara ensanguentada.
- Vou-me caminho
do bicho outra vez! Eu limpo -lhe o sebo!
– rosnou dando meia volta. De imediato o caminho lhe foi barrado pela pequena
Dolores, que rompeu de novo num choro aflito:
- Não pai!...
não!... já lhe bateu muito... já temos o pão!... vamos embora pr’ó Monte!...
Voltou
definitivamente as costas e, com o pão na mão, caminhou em direção ao Monte,
seguido pela filha.
José Manuel Simão
julho de 2017
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